sexta-feira, 16 de julho de 2010

Chá de Melissa


Numa noite tão fria como aquela, nada como um chazinho pra esquentar. E ela, mesmo de pijama, abriu a porta dos fundos e foi buscar umas folhas de melissa. Um puta frio... mas um puta frio gostoso.
Ingredientes 
400 ml de água (porção para dois)
um punhado de folhas de melissa
Modo de preparar
Primeiro, você deve colocar água para ferver até que esteja com pequenas bolhas. Coloque as folhas de melissa no fundo de uma xícara, ou ferva junto com a água mesmo. Deixe em infusão por 10 a 15 minutos. Tome a mistura quente. Adoce à vontade.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Que dure para sempre

Sentado em seu velho sofá forrado com um cobertor vermelho, comia um pedaço de pão. Olhando para sua sala via sua tv de 21 polegadas à sua direita, que desligada refletia os poucos feixes de luz que vazavam por entre as cortinas atrás dele. Agora que tinha tempo livre e silêncio como nunca presenciara antes naquele apartamento escuro, pôde perceber a dança que a poeira fazia ao encontrar com cada um daqueles feixes.
Pouco impressionado desviou o olhar e a atenção para aquela mesa que nunca entendeu muito o motivo de estar tão rente à parede. Apesar de terem sido apenas dois ali, a mesa, ao seu entender, teria muito mais utilidade na cozinha espaçosa à porta sempre aberta da esquerda do que naquele canto apertado da sala. As duas cadeiras mal cabiam, e ainda ficavam de costas para a tv.
Sobre a mesa seu casaco se estendia pendurado num gancho que devia servir para outra coisa.
Ao lado direito da mesa estava a porta de entrada do apartamento, que dali não via mas imaginava as escadas tão barulhentas pela manhã e que agora haviam se aquietado.
O sol quase se punha, as crianças provavelmente tomavam leite quente e conversavam baixinho para que seus pais pudessem assistir ao noticiário, ou a novela se a mulher fosse a mais influente da casa.
Na sua casa, porém, ninguém tomava leite, ali havia apenas ele com seu pão, e sua tv desligada para não perturbar seus pensamentos.
Não sabia porque, mas seu olhar sempre retornava para a mesa.
Talvez por ter sido um centro de muitas discórdias. Ele disse tantas vezes que preferia ocupar o espaço vago na cozinha do que sentar na sala de costas para a tv. Da cozinha até dava pra ver a tv, era só aumentar o volume.
Olhava para a tv que agora nem queria ligar, e retornava o olhar para a mesa. Pensou a respeito.
Na mesa não havia sequer um pano bonito. Apenas seu casaco por cima dela. E aquelas flores murchas.
Pôs a mão no bolso, achou alguns trocados, levantou-se, pegou o casaco e saiu pelas escadas. 
Ela sempre cuidara das flores que ficavam na mesa. 
Ele então descia as escadas para comprar novas. Agora de plástico.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A teoria do espelho

Ela sempre acreditou que pessoas mal encaradas eram infelizes. Não que andasse por aí sorrindo, ou mesmo que sorrisse aos olhares cruzados, mas mal encarada nunca foi. Pelo menos nunca viu em si mesma qualquer indício para acreditar que poderia transparecer infelicidade.
Andava pensativa nessa tarde, aquele mesmo cara que estava sempre naquele mesmo vagão hoje a olhou de forma mal encarada. Ou seria ela que transparecia infelicidade e despertou nele uma reação espelhada?
"Que teoria era essa, afinal?", pensou consigo mesma. Não lembrava onde a teria ouvido, ou mesmo se a teria inventado. Mas ao entrar em seu vagão, agora no turno de volta, simplesmente acreditava plenamente na teoria.
A teoria da reação espelhada. "Seria mesmo possível?. De tantos mal encarados que já havia visto, quantos estariam então espelhando sua própria infelicidade?"
Infeliz era uma palavra pesada para uma garota; "menina" para alguns. Infeliz.
Talvez estivesse errada na própria base, na própria fundação da teoria; talvez mal encarados não sejam infelizes afinal. Talvez a formação muscular de suas faces contraia de maneira a parecerem mal encarados, mas não seriam realmente.
"Será que tem muita gente por aí fazendo cara de mal por constituição física e não psicológica?"
"A questão não era essa... era?"

No dia seguinte, no mesmo vagão do turno de ida, viu o mesmo cara que já há algumas semanas ela tinha visto pela primeira vez.
Durante sua jornada diúrna, devagava sobre a constituição psicológica, intelectual e até mesmo artística daquele cara.
Ele que, de aparência "intelectualmente culto", "psicológicamente tranquilo", e "fisicamente normal"; sem contar a chance estatisticamente comprovada por ela e seus debates solitários de ele ter algum envolvimento artístico em alguma área ainda indefinida, mas muito discutida e inquietantemente anseada, e que hoje lia um novo livro agora de capa cinza e ouvia música em seus fones. Música essa onde volume era sempre baixo, o que ou a fazia acreditar ser um sinal de falta de interesse musical, ou que era tão musicalmente refinado que apreciava em volume ameno suas músicas pouco barulhentas, ao contrário da galera do psy às 6 horas da manhã.
Isso tudo, porém, era de pouca importância. Não pra ela, claro, mas pra ele. Pois hoje, assim como no dia anterior, ao cruzar olhares involuntários simplesmente a "mal encarou".
Ela, por impulso ou raiva, "mal encarou" de volta.
Infeliz. Ou ela ou ele. A teoria do espelho.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O músico II

Sentado em frente ao seu teclado musical, com um bloquinho de notas em seu colo, ele bebia sua terceira long neck naquela tarde.
Com os fones de ouvido tocando baixinho em seus ouvidos, ouvia mas quase nem prestava atenção àquela que foi seu primeiro orgulho, sua primeira boa composição.
Uma música longa e devagar, dedilhada ao piano, que ameaçava tristeza, ameaçava alegria... mas sempre o deixava devagar, e nunca decidia por ele seu estado de espírito, nunca lhe ditava o que sentir.
Hoje, ainda sóbrio apesar da cerveja, tinha decidido finalmente o tema de sua próxima composição.
Seria algo parecido com a que ouvia, mas parecido em termos. Sua semelhança se daria no método de concepção, onde não apenas encontraria notas de acordes que lhe agradasse, mas sim aqueles que o transportasse exatamente para onde ele queria ir. Sem interferir nem opinar, apenas remetê-lo às sensações até hoje inexplicáveis que viveu.
Assim como aquela melodia lenta que tocava baixinho em seus ouvidos, queria ser levado exatamente para dentro de si mesmo, onde sua mente rancorosa guardava e escondia dele aquilo que se esforçou pra esquecer, mas que hoje tanto lhe fazia falta.

Aos poucos, vivendo os capítulos depois dela, sua história foi se distanciando do pensamento palpável, e se tornando cada vez mais em um romance, um conto, uma poesia... algo que você escuta, vê beleza, mas nem questiona se existiu.  E hoje, tão distantes os dias, já nem conseguia ordená-los em sua mente, nem lembrava o que aconteceu antes e depois, e muitas vezes o que via eram apenas imagens estáticas, e mesmo elas aos poucos lhe escapavam.
Sabia, porém, que algo na música ativava muito daquilo que seria eternamente perdido, e sabia também, que se hoje compusesse algo que trilhasse um caminho àqueles cantos escuros de sua memória, nos dias que hão de vir apenas precisaria ouvir sua música, como um mapa ao seu abrigo secreto.

Tudo o que precisava agora era de um estímulo mais forte, algo que por um centésimo que fosse, o levasse tão perto que pudesse tocar um daqueles dias que se foram.
E ele tinha justamente a foto perfeita pra isso.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Poesia de Paula

de
s---------------P
o--------------------------a
i--------------------------------u
e----------------de----------------l
S--------s-----------------P--------a
o---------------------------a
i----------------------------------u
e--------------------------------------l
S---------------------------------------a

domingo, 21 de março de 2010

Para você, escritora.

Ele sempre quis ser artista. E acreditava que a arte era nada menos ou nada mais que a profunda expressão dos sentimentos humanos. O seu sentimento humano.
Partindo dessa lógica quis expressar-se profundamente. Tendo como humano os 7 prováveis bilhões que sentiam dos mais variados sentimentos. Ele, que queria ser artista, dessa vez tentava através de palavras; ele que não era escritor.
Seu sentimento humano a ser profundamente expressado foi rapidamente escolhido. Sendo um dos 7, aceitou todo e qualquer sentimento como real, pelo menos para alguns dos 7.
Sabendo quem nem todos escreviam, aceitou como óbvio que dificilmente todos os sentimentos seriam sequer um dia expressados na arte escrita, e assim teve para si mesmo mais um motivo para expressar aquilo que sentia, mas ao mesmo tempo sentiu também uma grande responsabilidade de expressar-se não apenas por si mesmo, mas para muitos daqueles que apenas liam.
Escrever, passou a entender, não era algo tão simples. Pois se para quem lesse não tivesse apenas o interesse naquela pessoa que escrevia, o sentimento expressado deveria, ao menos, ser muito próximo da possibilidade de ser compartilhado por vários outros daqueles que viviam e sentiam.
Se ele que não era escritor, pensando como aquele que não escreve, pudesse escolher alguém para amar, mesmo que voluntariamente apenas em prol daquele que lê, facilmente chegou à conclusão que a pessoa a quem amaria seria perfeita se escrevesse.
Assim, o escritor voluntário se declara eternamente apaixonado por aquela que escreve. Não aquela que escreve como ele, mas aquela que realmente é escritora e domina a arte da escrita.
E assim começa...

Eu que a li todos os dias, todos o seus textos publicados ao lado de sua foto romântica, imagino o mundo de sonhos em que vive, e caio confuso ao não caber em suas palavras.
Imagino todos seu cenários, entro dentro de cada sala. Sinto o perfume de seus vestidos usados, e imagino o tipo de luz que cairia perfeitamente em cada cena narrada.
Mas sei que todo amor, todo romance que pode inventar (ou mesmo se narra experiências próprias), sei que a nenhum deles faço parte.
Afirmo que sei, porém peço também desculpas por minhas dúvidas, pois ainda leio todos os dias na esperança de me reconhecer em seus poemas (e textos aleatórios), e cada um me faz ler cada vez mais.
Não me achar, não me encontrar e nunca ver meu nome citado ou meu rosto e perfil descritos não me faz desistir, pelo contrário, faz com que tente decifrar seus códigos, e no fundo de seus devaneios talvez encontrar alguma pista; e é sempre nas entrelinhas que acho motivos para continuar.
A esperança sempre distorce alguns sentidos, eu sei. Mas por mais que suas palavras possam ser para aquele que não te quer, sei que te querer é o que me faz continuar. Assim como continua a escrever, continuo a me imaginar em suas páginas.
Sei que o meu título ausente deveria conter seu nome, mas se é nas entrelinhas que você se entrega, é por ali também que vou me esconder.
E assim fica, de mim para ti, aquilo que nunca escreveria.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O banco

O elo central daquela cena era o banco. Ele rapidamente percebeu sua importância, e cuidou para que ele, o banco, cumprisse seu tão importante papel.
Momentos antes, no entanto, ele não havia notado. Sua sutileza, sua delicadeza, ou melhor dizendo, sua sensibilidade ainda não estava tão aguçada.
Com um leve sorriso cuidado para não ser notado, ele quase fechou os olhos ao pensar à respeito. Lembrou-se então do caminho percorrido até chegar ali. Lembrou-se da grama meio desbotada, meio pisada, que combinava perfeitamente com aquele tempo nublado e frio que predominava sobre aqueles últimos dias. A cor da grama combinava perfeitamente com o clima melancólico que mantinha com tanto carinho naqueles dias frios. Um verde mais pro bege, meio musgo, meio velho. Quase como se neve tivesse coberto aquela grama por alguns dias e só agora a liberava. Combinava perfeitamente com aquele frio.
Sua caminhada lenta e solitária, porém, não era triste. Nada perto de triste. Melancólica sim, mas por causa do céu nublado e o friozinho que lhe fazia cruzar os braços como se abraçasse a si mesmo. E nessa caminhada solitária ele aproveitava para pensar na vida. Não na dele, nem na de ninguém exatamente, mas na vida. Quase apenas olhava para baixo, é verdade. Quem o visse o acharia triste, meio largado, sem muita energia. Mas a verdade nós já sabemos, estava mesmo era fascinado com a cor da grama. Era completamente diferente da grama de verão, que berra demais, quase exagera ao exibir tanta vida em sua cor. Ele gostava era dessa grama, essa que vive mas pouco se importa em ser bela, e assim tanto combina com aquela vida que ele tanto conhecia, onde você sabe que é vivo, mesmo que não se encante com a vida em si.
Ele, como disse, não pensava em sua vida nem na vida de ninguém, mas na vida e no viver. E, apesar de tanta melancolia, o que aguçou sua sensibilidade naquela tarde foi exatamente o que menos esperava: aquela luz de pôr-do-sol que de repente aparece quando você já deu o dia como noite, aquela luz que invade um dia nublado apenas para lembrar-lhe de que, mesmo escondido, o sol esteve lá. E foi quando, com essa breve mas brusca mudança de cores, o banco tornou-se tão importante naquela cena. Ele, que há pouco entendera a harmonia das poucas cores do tempo nublado agora se deparava com aquela inúmera quantidade de nuvens numa imensidão sem fim ao dialogar com milhões de cores que o toque final do sol vinha trazer àquele dia. Sentou-se, pois não pôde conter-se de pé.
E quem apenas passava não podia notar o que o homem sentado fazia para tornar aqueles poucos segundos de luz em uma eternidade.

Bancos seriam para ele sempre um convite. Um convite à devagar sobre a vida e o que dela veria. E ansiosamente sentaria-se nos mais diversos lugares. E dali pra frente sempre que notasse estar correndo sem motivos, ou mesmo andando sem olhar, pararia e se sentaria.

No dia seguinte subia sua rua em direção ao mercado quando viu uma pequena praça entre duas velhas casas. Com um gramado bonito e uma árvore no centro, havia debaixo dela um velho banco de madeira. Tal banco não estava nenhum pouco próximo à calçada, estava posicionado bem no centro do pequeno gramado entre as duas casas. O convite era então ainda mais forte, porque quase todos os dias subia aquela rua e nunca o tinha notado. Foi então que notou a primeira coisa sentado: os que andam não notam o banco, mas sentem inveja daqueles que se sentaram.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Você conhece a sensação que dá quando do alto de uma montanha sua visão alcança uma imensidão de natureza intocada pelo homem?

Eternidade.

O que me fascina na natureza é isso, essa sensação de eternidade. Quando vemos uma árvore pensamos, talvez, em sua idade, mas raramente em sua morte. Mesmo que isso ocorra, o que sabemos que é algo mais que natural; quando olhamos para uma floresta, porém, (e aqui me refiro às florestas teórica ou praticamente intocadas pelo homem), ela nos remete ao começo de tudo, e provavelmente ao nosso fim. Toda floresta, ou montanhas, ou rios, ilhas...todo esse mundo natural, original, remete-se à eternidade quando pensamos em nossas vidas de pequeno alcance. Tudo, afinal, que relaciona-se com o homem tem uma brevidade. Tudo o que inventamos ou criamos, tudo o que construímos ou transformamos é breve, passageiro. As pirâmides do Egito são indestrutíveis? Passam elas a sensação de eternidade? Ou a de deterioração e queda de um império?
Nada que tocamos permanece. Tudo, no entanto, que permanece por nós intocado... não, não é uma verdade absoluta. Talvez a resposta para nossa busca incessante sobre a eternidade esteja mesmo na arte. Talvez. Música? Literatura? Pintura? Talvez até mesmo o nosso diálogo, nossa capacidade de mudarmos a nós mesmo em prol de uma sociedade, mesmo que não gostemos dela. O sentido de comunidade, sociedade, povo. Quem sabe um dia, quando o homem quebrar a fronteira terrestre, ele carregue com ele nossa arte, e assim perpetue o toque do homem como criação de algo eterno: nossa cultura.
Mas, infelizmente, sabemos que quase tudo o que tocamos deteriora-se com velocidade acelerada. Somos breves e não temos senso de eternidade.

Cotidiano: no metrô

Sentado dentro do metrô, com seu livro aberto em suas mãos, ele quase lia e quase sonhava. Já havia alguns minutos que ele não prestava atenção e apenas corria os olhos por linhas e parágrafos imaginários. Quem o visse não notaria; e realmente, os que viram apenas tiveram aquela imagem comum de senhor intelectual de meia idade e não se aprofundaram na questão.
Ele, dentro de si mesmo, porém, argumentava com sua mulher quase que telepaticamente. Construia seu argumento e, quando ao perceber falhas quando sua mulher o contra-argumentava, ele voltava novamente ao ponto inicial e aperfeiçoava seu raciocínio, fazendo com que sua mulher (imaginária) aceitasse seu ponto de vista e assim seguisse adiante no assunto.
Ao passar das estações ele ficava cada vez melhor no debate. Mas, ao ver que sua estação estava próxima, sentiu-se culpado, e desaprovou dentro de si mesmo a idéia que formulava desde cedo naquele dia. Sua idéia era, afinal, um absurdo. Ele sabia que era, e sabia que ela a acharia ainda pior.
Seu problema sempre existira e sempre existiria. Mas hoje, beirando seus cinquenta anos, sabia que tal assunto não era um problema passageiro, ou algo que ele devesse apenas lutar contra e tentar esquecer. Era um problema, afinal, que todo homem passava mas poucos sabiam lidar. E ele, orgulhoso por seu caráter correto, sempre manteve-se longe das possibilidades concretas de traição. Mas agora, longe de sua juventude, percebia que não viveria em paz se não afrontasse a questão de maneira mais realista.
Ele, sempre fiel à sua esposa, andava angustiado por uma moça nova em seu serviço. Como disse, ele, sempre fiel, nunca traíra sua mulher de fato. Mas, hoje, morrendo por dentro, admitira a si mesmo que desde sua época de namoro a vinha traindo diariamente. Pois ele, afinal, nunca deixara de desejar outras mulheres, podia mesmo nunca ter levado outra pra cama, mas sempre as carregava em sua mente.
Mente imunda? Não, na verdade não.
Ele via as mulheres (agora cito um de seus próprios argumentos), como jóias, como pedras preciosas. Não as via apenas como peito e bunda, ou como sexo. Ele as admirava profundamente em seus pensamentos. Hoje mesmo ficara horas pensando naquele vestido que ela usara.
Abismado com tamanho encanto que tal vestido lhe proporcionara, ele tentou decifrá-lo. Primeiro lembrou-se do leve tecido tocando e acariciando sua bunda. Pensou exatamente onde o tecido do vestido de cores pastéis a tocava e dividia. Mas ainda não era isso, não era exatamente o que lhe causava tamanho encanto. Talvez a própria leveza em si fosse a causa do efeito. A leveza do toque. Pois lembrava-se também de sua barriga, onde o vestido a tocava ele quase podia sentir a textura macia de sua pele. Quase podia respirar ali, ofegante.
Voltando-se ao mundo real ele desceu do vagão e caminhou lentamente com o livro e uma maleta na mão.
Ele precisava pôr isso pra fora de algum jeito. E sabia que seria ridícula qualquer tentativa de explicar o motivo de estar tão quieto, tenso, estressado...
O amor era algo diferente, ele sabia que era. Ainda amava sua mulher como a amou ao pedí-la em namoro, ao pedí-la em casamento. Mas aquilo não tinha, não podia ter relação com seu amor por ela. Ele, afinal, ainda a amava; mas sentia-se perto da morte ao pensar que não poderia tocar aquelas mulheres que dia após dia o faziam enlouquecer.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O músico

Aquela caminhada de madrugada havia se tornado um vício. Não bebia nem fumava, mas também nunca se preocupara em ser do tipo atlético saudável. Caminhava sim, mas para pensar, não para ir realmente a algum lugar.
Sentado no terceiro banco do lado norte do lago em frente ao museu, um senhor idoso sentava-se sempre com o mesmo casaco cinza ouvindo seu walkman de fita. Sempre segurando-o na mão esquerda enquanto a mão direita fazia leves movimentos semelhantes ao de um regente de orquestra. Todos os dias ele estaria ali, e todos os dias ele não deixava de ficar instigado com aquilo. Músico como sempre fora, não deixava de notar pessoas como aquele velho senhor. E aquele ato de tentar reger uma música já gravada o fascinava.
E foi exatamente nesse momento de abstração, exatamente no décimo terceiro dia de caminhadas solitárias que ele a encontrou. Com uma expressão facial indescritível ele teve certeza que a encontrara. E dali em diante reconheceu naquela voz uma suave melodia à medida em que ela, de lábios rosados, soltava aos poucos suas palavras... e frases... e meigas risadas.
Foi então que percebeu que iniciara uma nova fase em sua vida.

Há alguns anos notara que rompimentos bruscos em seu entendimento o levavam a uma nova fase. E como nunca teve medo de mudar, mas sim de se repetir, ou pior, de repetir os outros, ele não hesitava e encarava toda mudança como um passo mais próximo ao caminho da verdade.
Sua primeira fase foi aquela em que todos os amantes da música que se denominam músicos devem passar. Ele a descrevia como "Fase do Meio", nome que sempre que ele usava era mal compreendido, já que por ser a primeira fase não fazia sentido ser a do meio, mas aos poucos que ele se dava ao trabalho de explicar facilmente entendiam. O "meio", claro, era o "instrumento".
A fase do meio, portanto, consistia no momento inicial do aspirante a músico, onde tal amante acredita que sua amada se esconde em cada instrumento musical. Aquele que abre seu caminho através das cordas do violão acredita de olhos fechados que toda música se encontrará por entre aquelas cordas e posições. Já o pianista, durante essa fase, acredita que a exata combinação de teclas a alcançará. E tal crença dura até que ele perceba que o instrumento não é música, e a música que ele fornece é nada mais do que aquela que sua mão alcança ou está habituada a alcançar. O alcance da mão, no entanto, para aquele que um dia compreendeu melhor a música, é infinitamente menor que o amor da música para com aquele que a busca.
A segunda fase é a "Fase Egocêntrica", onde o músico acredita ser a música em si. E ele acreditou com toda certeza. Fechava os olhos e a enxergava com tamanha nitidez que não havia dúvidas, a música estava dentro dele. Era só olhar cada vez mais para dentro de si mesmo que a encontraria. Sua mão, agora livre dos vícios iniciais, livre para buscar a música que muito lhe fugia o alcance, agora alcançava tão longe quanto seu próprio eu podia alcançar.
Por algum tempo acreditou que seu próprio suor eram suspiros da música. Acreditou e externou sua crença, trazendo à tona aquela música que vivia apenas ali, dentro de si. E quem ouviu se apaixonou por ele. E ele, com mais e mais certeza buscou mais e mais fundo.
A música, no entanto, foi tornando-se cada vez mais escassa. E com o passar do tempo ela o abandonou.
Procurou em vão por mais algum tempo. Mas dentro de si a música não vivia mais.

E foi num dia de longa caminhada sozinho que a encontrou. Foi necessário que primeiro deixasse de acreditar que a encontraria em objetos, mas o maior passo foi deixar de acreditar que era o seu dono, e que devia buscá-la fora de si mesmo, fora desse mundo viciado em pré-concepções. Percebeu que a música era, e sempre foi, música por si só. Ninguém podia controlá-la, muito menos acreditar possuí-la. Foi quando deixou de obcessivamente tentar domá-la aos seus caprichos, e assim a encontrou; pura e perfeita.
Ela, a música, agora não seguia a lei dos homens, mas vivia livre como música que sempre foi. E como prova de amor pelo músico libertador, a música passou a lhe visitar todos os dias. Nua ela o acariciava enquanto cantava aos seus ouvidos. Sem idéias fixas, receios ou preconceitos, ele deixou de querer ser seu ditador; deixou-a mostrar-lhe todos seus encantos. Assim de forma tão natural viraram fiéis amantes onde quase podia vê-la: ela, de lábios rosados, soltava aos poucos suas palavras... e frases... e meigas risadas.




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Cheiro de madeira molhada

Cenário: O lugar era abafado. O cheiro de madeira úmida era forte o suficiente para praticamente anular qualquer outro cheiro. Era mais ou menos cinco horas da tarde. O sol não aparecera aquele dia. Mas ainda não estava escuro. Dali de dentro podia-se ouvir vozes e conversas aleatórias à distância. Por vez ou outra alguém passava correndo mais perto, fazendo o barulho de pés descalços na pedra molhada. Carruagens por vezes se aproximavam, mas raramente. A maioria passava ao longe. Longe o suficiente para ouvirem apenas as rodas de madeira tocarem as quinas dos paralelepipedos, e as ferraduras de trote lento desritmado. A chuva que caíra nos últimos dias havia dado uma trégua para uma fina garoa. Lá fora fazia um friozinho gostoso de fim de tarde úmida. Mas lá dentro estava muito abafado.

Personagens: Ana havia nascido numa pequena vila fora da cidade. Crescera com sua mãe e dois irmãos. Via o pai quase todo o dia, mas não moravam juntos. A história do pai e da mãe ainda não terminara, já que por vezes ele passava a noite por lá. Mas não viviam mais juntos. Ana, já com dezessete, trabalhava cuidando da casa, e quando sobrava tempo corria com seus irmãos para a lavoura. Ela não precisava ajudar, mas ajudava. Fazia de tudo para não ficar em casa. Não que não se desse bem com sua mãe. Ou mesmo com seu pai, já que ele também sempre estava na lavoura com seus irmãos. Mas Ana tinha algo dentro dela que a fazia querer correr. E corria. Mesmo com o a grama molhada e o chão enlameado sempre que ela podia ela corria. E como era a sempre mais disposta, era ela mesma que sempre era encarregada em dar um pulo na cidade. Para buscar leite, pães, ou qualquer coisa que lhes faltassem, a mãe de Ana sempre pedia apenas para ela ir buscar, já que cansara de implorar para os irmãos mais velhos sendo que ela ía "num pulo". Ir ela ía, mas sempre demorava pra voltar.
Alice morava na cidade. Era filha do dono da barraca de pães da pequena feira da cidade. Quando não estava na rua de cima com sua mãe ajudando fazer os biscoitos ela estava com seu pai ajudando a vender os pães. E biscoitos. E outras coisas. Ao contrário da Ana, porém, ela nunca foi muito disposta a ajudar os pais em suas tarefas diárias. Ela era mais sonhadora. Não sonhadora no sentido de correr descalça de saia com os pés na lama como Ana. Mas sonhadora do tipo de sonhar acordar mesmo. Daquele tipo que sonha, sonha, mas não sai do lugar. E por esse motivo vira e mexe ela tomava uma bronca do pai. Ou um tapa na cara da mãe, seguido por um "acorda, inútil!". Isso, claro, a incomodava. Mas não fazia drama à respeito. Era afinal uma sonhadora do pior tipo.

Cena: E por ser tão distraída e quase não ajudar em nada, sua mãe a encarregou de comprar o leite aquele dia. Sonhadora do pior tipo que era, não apreciava a caminhada, nem percebia os pássaros, nem se deliciava com a garoa fina que tocava seu rosto. Sonhava com outras coisas, coisas que não via, coisas inalcançáveis, coisas inexistentes. E assim seguia rua abaixo, por entre as estreitas ruas de paralelepipedos da pequena cidade. Seu vestido de pano estava limpo da cintura pra cima, o que lhe favorecia o rosto, trazendo-lhe uma luz subliminar à sua face limpa.
Ana, cansada de correr parou um pouco pra descansar. Olhou pra cima de olhos fechados pra refrescar o rosto. O cabelo quase molhado pendia pra trás. E então, ainda de olhos fechados, sentiu um cheiro que superou aquele perfume gostoso amadeirado. Ela que amava aquele cheiro de madeira molhada sentiu-se arrepiada ao reconhecer aquele velho perfume tão muito melhor. Mesmo de cabelo preso Alice exalava aquele cheiro de menina banhada que Ana conhecia muito bem. A sonhadora do pior tipo, no entanto, nem percebeu a menina que rindo entrou no pequeno e velho armazém. E com o puxão que veio do nada ela se conteve pra não gritar. No susto fechou os olhos e só abriu quando teve certeza. E o que Alice mais gostava nela era, afinal, aquela facilidade de improvisar.
E na casa das duas pôde-se ouvir ecoar: "E aquele leite que não chega?"

O construtor

"Não sou pedreiro, sou construtor." Disse ele pela segunda vez, e dessa vez impostando a voz com mais firmeza.
"Construtor é o responsável pela obra, rapá!", "Tu é pedreiro mesmo! De onde já se viu?"
"Nunca mexi com pedra, então não sou pedreiro. Se trabalhasse com extração, mineradora ou algo parecido te diria que era, mas não sou. Construção é minha área, eu construo as coisas, sou portanto construtor. Já construí mais de cem casas, mais de trinta lojas, e uma creche. Eu trabalho construindo. Construo direito, pois é meu trabalho. Sou construtor."
"Puta que o pariu! Ow, Alemão! Onde você arranjou esse filho da puta?". Olhou pra trás mas ninguém respondeu. Todos continuaram suas rotinas de trabalho. Tijolos eram empilhados, botas no pé e sacos de areia no ombro. O cimento pouco rodava e já caía nos carrinhos. Carrinhos de mão que passavam de vazios para cheio e as paredes já eram espirradas de reboco pra receber a massa.
"Vem cá, vai continuar com essa história de construtor aí ou vai aceitar o trabalho?"
"O trabalho eu aceito." Disse com cara séria sem sair do lugar. "Mas não sou pedreiro!"
"Tu é construtor então?"
"Sou construtor, sim senhor!"
"Então me diz, se tu é construtor tu é dono de uma construtora, é isso? Por que pra mim tem construtor, que é o encarregado da obra, e tem a construtora, que é a dona da porra da obra. Agora você, você é pedreiro! Olho pra ti e já vejo. Sempre trabalhou e sempre vai trabalhar pra porra do construtor que é funcionário da porra da construtora!"
"Vou explicar pro senhor. Mas vou explicar só mais essa vez. Economista é dono da economia? Economista faz a economia funcionar? A economia sem o economista deixa de existir?? Não. O economista tem esse nome porque estuda a economia. Ele entende ela, mas ela não precisa dele. Agora a construção precisa de mim. Sem os construtores como eu, que põe a mão no bloco e sabe o que fazer com eles a construção não sai. Eu diria até que sem essa sua construtora mesmo assim construções existiriam. Sem construtores como eu, no entanto..."
Um encarou o outro por um tempo. O que ouviu tirou um cigarro do bolso, colocou na boca, e antes de acender por fim falou:
"Tá certo. Me convenceu... mas idaí, qual a diferença então? Tu é construtor, mas trabalha como todo pedreiro aqui. Tu é esperto, não vou negar. Entende do que fala. É mais espero que esses caras aqui. Mas idaí? Qual a diferença se vai aceitar trabalhar aqui com eles?"
"Eu cobro mais caro."



"E cobro hora extra também..."

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tumulto na favela

-Corre, filho da puta!
Nem pensou. Correu como um desgraçado. Descalço do pé direito e com uma havaiana no pé esquerdo ele correu. Era escadaria, subida de terra batida. Ía se escorando onde dava, e pegando velocidade mesmo quando já não aguentaria andar.
Quem o via correndo só desviava. Quando dava tempo; quando não dava o muleque trombava, não pedia desculpas e continuava seu rumo.
- Filho da puta!
Alguém viu e tentou segurá-lo. Outro com o cigarro na mão deu uma gargalhada. Mas quem viu a expressão em seu rosto não achou graça. O muleque tava correndo de desgraça.
- Entra pra dentro, filha! Fecha a porta! Vou ver o que o muleque aprontou. - e saiu o velho atrás dele. Mas não correu não, só deu sinal pra outro muleque sentado no pé da vendinha e desçeu a viela.
A menina, de porta fechada, olhou da janela.
Desce escada, pula buraco, pula até um outro muleque jogando bolinha de gude. E quase pisa no da frente.
- Ei, ow! Filho da puta!
Ofegante ele já nem acredita que está vivo. Parece que está sonhando que corre. Já não sente mais nada. Nem pernas, nem pulmão. O suor que ardia o olho já nem incomoda mais.
Mas ele continua correndo. Quem o via agora ficava assustado.
- Viu o muleque de pé sangrando e um chinelo só, correndo que nem louco?
- Vi não... cadê?
- Ali, oh!
- Cadê?
- Virou já...

Seleção de cenas

Ele sabia como aquilo funcionava. A cada dia aprimorara mais e mais seu método e, agora que o usaria mais do que nunca, estava perfeito.
Há quanto tempo vinha desenvolvendo-o já não sabia. Desde sempre talvez. Mas não lhe restavam dúvidas de que só agora poderia desfrutá-lo por completo. Ele, afinal, era seu dono. E o segredo para chegar onde chegou estava nos detalhes.
Respirou fundo. Apagou a luz...e fechou os olhos.
Sabia que muito em breve não mais precisaria desse ritual todo, mas tudo era questão de controlar a ansiedade agora.
Sua respiração foi ficando cada vez mais lenta. Seu coração já batendo bem devagarinho...até que sentiu a luz invadir seus olhos. Tudo o que via era aquele tom avermelhado da luz do sol convidando às pálpebras dos olhos a se abrirem.
Sentiu o friozinho daquela manhã, e abriu os olhos: ali estava ela!
Estava coberto naquele grosso edredon no qual ela tanto se orgulhava ter comprado em promoção. Nem ele nem ela estavam vestidos. Tudo o que via, porém, eram suas costas e seu cabelo iluminado.
Seu coração permaneceu calmo. Sua respiração continuou bem leve. Leve o suficiente para se aproximar de seu pescoço e sentir seu cheiro sem acordá-la. A sensação de tocar aqueles cabelos novamente o enchia de sentimentos mistos. Era muita tristeza. Muito tesão. E muita alegria.
Sentou-se na cama ainda do lado da parede. Olhou para as próprias mãos e nesse momento quase enganou-se a si mesmo. Era tudo muito real.
Sorriu e chorou. Pois havia funcionado. Cada detalhe que naquele dia se forçou a prestar atenção agora se mostrava vivo em sua recordação.


Obs: O que ele tinha agora era uma cópia perfeita daquela que ele acreditou que fosse, e que hoje já não era mais.
Por diversas vezes ele fez isso, atentou-se aos menores detalhes dos mais cotidianos cenários, e, principalmente, de sua amada.
Fez tudo isso ao antecipar o fim. E agora revisitava suas cenas prediletas captadas enquanto ela lhe escapava.

Sociedade dez anos depois do ano 2000

Nem carros voadores nem vôos tripulados pra Marte.
Hoje deixamos pessoas morrerem quando a chuva vem.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Puta menino teimoso que queria correr no lago!

O cenário era azul. Não que o dia estivesse com um céu aberto bonito, mas porque na visão do menino tudo andava meio azulado. Com o preto das sombras bem demarcado, e um verde meio desbotado.
Muito calor. Mas pra ele não estava aquele dia amarelado. Tudo era meio azul mesmo. O céu tava meio nublado, com nuvens negras brigando por espaço. Mas os reflexos no lago eram meio azulados.
No dia anterior ele vira na tv, e brincara com seu primo dizendo que faria que nem aquela lagartixa que corre tão rápido, mas assim bem rápido mesmo, que nem dava tempo de afundar a patinha que já tava do outro lado.
Hoje o primo não tava, então correra pro lago.
Estava agora respirando fundo. Dando pulinhos pra esticar as pernas sem tirar os olhos do lago. Nem parou muito pra pensar na distância do outro lado.
Focou seus olhos na água que espirrou e viu que era um sapo. Não, sapos não flutuam que nem lagartos.
Ou era lagartixa aquele bichinho danado?
Pegou distância, deu uma corridinha mas parou encucado. Coçou a cabeça e olhou pra baixo. Talvez assim não funcionasse, era melhor ficar descalço.
- AAAAaaahhh!!!
Numa estilingada ele correu. Braço pra frente e braço pra trás. Gritando sempre e cada vez mais. Um pé na grama e outro no barro.
De olhos fechados sentiu o pé molhado. Gritou mais alto e foi ainda mais rápido.
Quando abriu os olhos ficou desesperado. O filho da puta caiu no meio do lago.


Noite de verão

Esperando na fila da cerveja, em frente a um boteco de rua próximo à praia, do nada ela ouve alguém dizer:
- Oi, meu nome é Arlei.
Foda-se, pensou consigo mesma. Mas não respondeu. Apenas o olhou pra ver se não era ninguém que ela conhecesse mesmo. Vendo que não era, desconsiderou qualquer resposta e voltou a focar-se na fila.
- Porra, mas é metida mesmo, hein?
Apenas respirou fundo tentando não se emputecer, mas se emputeceu mesmo assim.
- Qual o seu nome?
- Mas o que você quer, hein?
- Porra... nada não, ué! Só tô conversando...
Novamente ela o ignorou. Deu uns três passos adiante, já quase chegando sua vez pra pegar sua gelada. A noite era bem quente, como as noites baianas de verão. Ali ao lado se encontravam suas amigas, todas já meio bêbadas, mas ela um pouco menos. Ao fundo ouvia-se música ao vivo tocando bem alto. Aquele ponto da praia era particularmente agitado durante a noite, e ela, de saia azul e bluzinha branca, bebia naquele mesmo boteco toda sexta.
- Meu nome é Arlei, e o seu?
- Mas você é chato, hein? Se eu disser meu nome vai embora?
- Depende... se continuar chata assim comigo...
- É Shirlei. Meu nome é Shirlei...
- Porra, rima com o meu!
- Três latinhas por favor!
Ele rodeou, olhou pra praia, fingiu que ía embora, mas voltou.
- Você é da onde, Shirlei?
- Puta merda, nem gelada não tá.
- Ô João, troca as cervejas aqui pra moça, vai! Pega aquelas do fundo que gelada eu sei que você tem!
Ela olhou pra ele, mas antes de dizer qualquer coisa ele já estava trocando as cervejas pra ela.
- Aqui, oh!
- Obrigada...
- Então, da onde você é?
Ela tirou os cabelos do rosto, abriu uma latinha e respondeu.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Evitava olhar pra cara dela. Mas como adorava seu corpo. Era de frente, de costas...de qualquer jeito que ela se vestisse ele ficava louco por ela. Sentia a rigidez de suas pernas, seios e bunda só de olhar. E sempre ela se aproximava e se deixava tocar. Que calça linda. Que tom de pele. Mas o que mais gostava era aquele ossinho da cintura que fica nem na barriga nem na coxa. Aquela marquinha que desenha e aponta para o meio das pernas.
Não olhava pra cima, olhava direto pra ela.

Cotidiano

Uma piscada foi o suficiente para tirá-lo da pista. Outro carro vinha na pista contrária, mas esse não piscou, desviou dele pela contra-mão.
Chegando em casa ainda assustado com o incidente. Ele pegava aquela longa estrada todos os dias, era normal que um dia ou outro um momento maior de adrenalina ocorresse, mas hoje havia sido por pouco, podia ter morrido.
Em casa tudo estava normal. Sua esposa cozinhava o de sempre naquela panela que compraram junto com a casa. Sua filha tomava banho, e seu filho mais velho assistia tv.
Foi pro quarto, tomou seu banho, e voltou pra sala já de pijama. Sua cara estava horrível, cansado e com sono. Sentou-se ao lado do filho, olhou pra cozinha e gritou "uma cerveja, pelo amor de Deus". E, como sempre, ouviu a resposta "vem buscar!".

à caminho da escola

Com as batidas do coração cada vez mais rápidas ele começou a perder noção da realidade. Não sabia mais onde estava. Sabia, porém, porquê estava ali, pois podia sentir no ar o cheiro que vinha debaixo de sua saia. Aquelas pernas negras que o fazia suar de noite. Que o fazia suar de manhã.
Todos os dias ele atravessava o rio pela pequena ponte improvisada. E, nem todos os dias, mas nos dias de sorte, ela estaria ali, lavando roupas no riacho.
Como atravessar o rio era caminho pra escola ele achava que ela não desconfiaria. Mas na verdade ela não desconfiaria por outro motivo: ele tinha apenas 12 anos, e ela 27.
Com a primeira paulada que ele deu ela não caiu, foi quando entrou em pânico. Não contava com a possibilidade de ela ser mais forte que ele.
Na segunda, porém, não teve jeito, ela foi ao chão. Assustado, olhou ao redor pra ver se ninguém tinha visto, mas como sempre, ali não havia mais ninguém.
Suas mãos tremiam e de nervoso ele quase vomitara. Mas aos poucos o nervoso foi dando espaço para outra sensação. Uma sensação que por mais novo que fosse já conhecia bem.
Primeiro levantou sua saia, depois abaixou seu decote.
Seu coração disparou novamente, mas agora de tal forma que foi perdendo os sentidos. Quando deu por si, ele estava em outro lugar. Ou seria o mesmo lugar? Não se lembrava de ter pulado no riacho, mas estava todo molhado. Olhou ao redor e não a encontrou. Mas pôde sentir o cheiro, estava suas mãos, em seu corpo todo. Podia sentir o gosto dela.
Quando a primeira paulada não a derrubou ela olhou pra trás. Não podia tê-lo visto, teve que afundá-la no rio.
Ir pra escola pelo caminho do riacho desde então perdeu a graça.

sexo na fazenda

com a balançada mais forte caíram ambos da rede.

Admirador secreto

Empregando cada vez mais força ele podia sentir os pequenos ossinhos de sua mão sendo massacrados. O sangue que escorria já não podia dizer se era dele ou dela. Sua mão doía tanto que duvidava que ela se machucava como ele quando aplicava outro e outro golpe. Os músculos de seu braço já quase sem força se contorciam.
Mas não mais que os músculos de seu rosto. Eles sim agora trabalhavam como nunca antes. Seu rosto era a parte de seu corpo que onde mais se concentrava energia, toda força empregada para fazer aquelas caretas eram no mínimo duas vezes mais que a força destinada aos seus braços e punhos. A cada golpe, cada pancada, seu rosto sofria com o esforço empregado. Cada vez que espirrava suor ele se sentia fraco mediante a tamanho esforço. O suor que escorria da testa para os seus olhos o irritavam mais que o sangue em suas mãos.
Então fechou os olhos. E de olhos fechados ele lembrou da beleza que o levou àquele esforço físico tão grande. O rosto dela brilhava na luz da lua como se fosse o destino certo do astro noturno. Seus cabelos exalavam um combustível que incendiava todas as partes de seu corpo. Era ela, a deusa daquela noite. Ele não precisava pensar à respeito, pois toda a luz que um dia existiu apontava apenas para ela. Não havia dúvidas.

sábado, 16 de janeiro de 2010


e hoje eu sinto saudades do que esperava do futuro.