terça-feira, 20 de março de 2012

aquele que acredita é enganado
ao cético é negada a fantasia
um é feito de tolo e humilhado
e o outro nunca entenderá de poesia

quinta-feira, 15 de março de 2012

Cor de carpete beje velho

Sentado no sofá, roçava os pés no carpete cor de beje-velho da sala. Após balbuciar algumas palavras, debruçou-se. Contorceu-se sobre si mesmo. Revolucionou seu corpo de tal forma em torno de si a ponto de quase perder o equilíbrio e cair sobre o chão.
Já estava naquilo havia uns bons minutos. Quinze minutos, meia hora...ninguém realmente contava.
Talvez até fosse possível vê-lo de alguma das janelas do prédio em frente; ele não se importava, ou sequer pensara a respeito. Os minutos corriam e ele mantinha seu ritual.

Há alguns dias ele vinha fazendo aquilo. Se despia largando as roupas pelo chão enquanto caminhava em direção ao seu sofá azul acinzentado e fazia ali o que quer que fazia ali.
Sequer reparava na janela sem cortinas ou mesmo acendia as luzes daquela sala sempre meramente iluminada pelo laptop ligado.
Laptop esse que cada hora era largado em um lugar diferente: sobre o sofá, ao lado da tv quebrada, na pequena mesa ao canto oposto da janela, ou mesmo no chão.
Nu, se jogava no sofá e de imediato começava sua série de marabarismos corporais desconexos - quase vulgares de tão grotescos.

Quem sabe alguém o estivesse mesmo espiando. Aposto que o achariam no mínimo inventivo. Pois ao menos era muito criativo; em sua espécie de performance nunca repetia um movimento. Mesmo não mantendo uma sequência lógica, rítmica ou estética de gestos, havia em si um grande mérito aquela sua capacidade de coordenação.
Mas a luz dali não era boa. Talvez quem estivesse de fora não fosse realmente capaz de ver ou entender ali qualquer coisa.

Nu, em meio a malabarismos, seu corpo respondia imediatamente aos seus impulsos internos. De um lado pro outro, devagar ou rapidamente, seu pênis e escroto pareciam não se importar.

Sempre depois de um tempo, ao ficar todo molhado de suor, costumava estirar-se no chão por um momento. Hoje, no entanto, parecia mais misterioso do que de costume. Quem agora o olhasse ficaria completamente intrigado.
Nada estético era, também, o resultado do jogo de luz e sombra - casualmente criado pelas fontes luminosas fluorescentes e de tungstênio vindas da janela ao cruzar com a luz fria azulada do monitor - somado àquele que ali bizarramente se encontrava entre constantes mudanças de intercambiáveis posições, e à sua mais nova ereção. Com tudo isso obtinha-se absolutamente nada. Aliás, sabe-se lá de onde veio o mandamento para que seu membro se prostrasse daquela forma.

E ele, que provavelmente sequer notou a materialização de seu entusiasmo, mesmo que isso não soe nada razoável , simplesmente deixou o transe e ergueu-se do sofá. Entre pingos de suor e bater de coxas, correu diretamente para a única fonte de luz que ali pertencia.
Aparentemente havia tido uma epifania. Escreveu quase sem parar tudo o que repentinamente havia se esclarecido nas entranhas de sua mente. Não que entendera melhor a vida, ou muito menos as mulheres que passara a odiar depois de muito amor. Mas parecia genial enquanto escrevia.

E se alguém o visse agora, sabe-se lá o que ia pensar.