segunda-feira, 31 de maio de 2010

A teoria do espelho

Ela sempre acreditou que pessoas mal encaradas eram infelizes. Não que andasse por aí sorrindo, ou mesmo que sorrisse aos olhares cruzados, mas mal encarada nunca foi. Pelo menos nunca viu em si mesma qualquer indício para acreditar que poderia transparecer infelicidade.
Andava pensativa nessa tarde, aquele mesmo cara que estava sempre naquele mesmo vagão hoje a olhou de forma mal encarada. Ou seria ela que transparecia infelicidade e despertou nele uma reação espelhada?
"Que teoria era essa, afinal?", pensou consigo mesma. Não lembrava onde a teria ouvido, ou mesmo se a teria inventado. Mas ao entrar em seu vagão, agora no turno de volta, simplesmente acreditava plenamente na teoria.
A teoria da reação espelhada. "Seria mesmo possível?. De tantos mal encarados que já havia visto, quantos estariam então espelhando sua própria infelicidade?"
Infeliz era uma palavra pesada para uma garota; "menina" para alguns. Infeliz.
Talvez estivesse errada na própria base, na própria fundação da teoria; talvez mal encarados não sejam infelizes afinal. Talvez a formação muscular de suas faces contraia de maneira a parecerem mal encarados, mas não seriam realmente.
"Será que tem muita gente por aí fazendo cara de mal por constituição física e não psicológica?"
"A questão não era essa... era?"

No dia seguinte, no mesmo vagão do turno de ida, viu o mesmo cara que já há algumas semanas ela tinha visto pela primeira vez.
Durante sua jornada diúrna, devagava sobre a constituição psicológica, intelectual e até mesmo artística daquele cara.
Ele que, de aparência "intelectualmente culto", "psicológicamente tranquilo", e "fisicamente normal"; sem contar a chance estatisticamente comprovada por ela e seus debates solitários de ele ter algum envolvimento artístico em alguma área ainda indefinida, mas muito discutida e inquietantemente anseada, e que hoje lia um novo livro agora de capa cinza e ouvia música em seus fones. Música essa onde volume era sempre baixo, o que ou a fazia acreditar ser um sinal de falta de interesse musical, ou que era tão musicalmente refinado que apreciava em volume ameno suas músicas pouco barulhentas, ao contrário da galera do psy às 6 horas da manhã.
Isso tudo, porém, era de pouca importância. Não pra ela, claro, mas pra ele. Pois hoje, assim como no dia anterior, ao cruzar olhares involuntários simplesmente a "mal encarou".
Ela, por impulso ou raiva, "mal encarou" de volta.
Infeliz. Ou ela ou ele. A teoria do espelho.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O músico II

Sentado em frente ao seu teclado musical, com um bloquinho de notas em seu colo, ele bebia sua terceira long neck naquela tarde.
Com os fones de ouvido tocando baixinho em seus ouvidos, ouvia mas quase nem prestava atenção àquela que foi seu primeiro orgulho, sua primeira boa composição.
Uma música longa e devagar, dedilhada ao piano, que ameaçava tristeza, ameaçava alegria... mas sempre o deixava devagar, e nunca decidia por ele seu estado de espírito, nunca lhe ditava o que sentir.
Hoje, ainda sóbrio apesar da cerveja, tinha decidido finalmente o tema de sua próxima composição.
Seria algo parecido com a que ouvia, mas parecido em termos. Sua semelhança se daria no método de concepção, onde não apenas encontraria notas de acordes que lhe agradasse, mas sim aqueles que o transportasse exatamente para onde ele queria ir. Sem interferir nem opinar, apenas remetê-lo às sensações até hoje inexplicáveis que viveu.
Assim como aquela melodia lenta que tocava baixinho em seus ouvidos, queria ser levado exatamente para dentro de si mesmo, onde sua mente rancorosa guardava e escondia dele aquilo que se esforçou pra esquecer, mas que hoje tanto lhe fazia falta.

Aos poucos, vivendo os capítulos depois dela, sua história foi se distanciando do pensamento palpável, e se tornando cada vez mais em um romance, um conto, uma poesia... algo que você escuta, vê beleza, mas nem questiona se existiu.  E hoje, tão distantes os dias, já nem conseguia ordená-los em sua mente, nem lembrava o que aconteceu antes e depois, e muitas vezes o que via eram apenas imagens estáticas, e mesmo elas aos poucos lhe escapavam.
Sabia, porém, que algo na música ativava muito daquilo que seria eternamente perdido, e sabia também, que se hoje compusesse algo que trilhasse um caminho àqueles cantos escuros de sua memória, nos dias que hão de vir apenas precisaria ouvir sua música, como um mapa ao seu abrigo secreto.

Tudo o que precisava agora era de um estímulo mais forte, algo que por um centésimo que fosse, o levasse tão perto que pudesse tocar um daqueles dias que se foram.
E ele tinha justamente a foto perfeita pra isso.