terça-feira, 20 de março de 2012

aquele que acredita é enganado
ao cético é negada a fantasia
um é feito de tolo e humilhado
e o outro nunca entenderá de poesia

quinta-feira, 15 de março de 2012

Cor de carpete beje velho

Sentado no sofá, roçava os pés no carpete cor de beje-velho da sala. Após balbuciar algumas palavras, debruçou-se. Contorceu-se sobre si mesmo. Revolucionou seu corpo de tal forma em torno de si a ponto de quase perder o equilíbrio e cair sobre o chão.
Já estava naquilo havia uns bons minutos. Quinze minutos, meia hora...ninguém realmente contava.
Talvez até fosse possível vê-lo de alguma das janelas do prédio em frente; ele não se importava, ou sequer pensara a respeito. Os minutos corriam e ele mantinha seu ritual.

Há alguns dias ele vinha fazendo aquilo. Se despia largando as roupas pelo chão enquanto caminhava em direção ao seu sofá azul acinzentado e fazia ali o que quer que fazia ali.
Sequer reparava na janela sem cortinas ou mesmo acendia as luzes daquela sala sempre meramente iluminada pelo laptop ligado.
Laptop esse que cada hora era largado em um lugar diferente: sobre o sofá, ao lado da tv quebrada, na pequena mesa ao canto oposto da janela, ou mesmo no chão.
Nu, se jogava no sofá e de imediato começava sua série de marabarismos corporais desconexos - quase vulgares de tão grotescos.

Quem sabe alguém o estivesse mesmo espiando. Aposto que o achariam no mínimo inventivo. Pois ao menos era muito criativo; em sua espécie de performance nunca repetia um movimento. Mesmo não mantendo uma sequência lógica, rítmica ou estética de gestos, havia em si um grande mérito aquela sua capacidade de coordenação.
Mas a luz dali não era boa. Talvez quem estivesse de fora não fosse realmente capaz de ver ou entender ali qualquer coisa.

Nu, em meio a malabarismos, seu corpo respondia imediatamente aos seus impulsos internos. De um lado pro outro, devagar ou rapidamente, seu pênis e escroto pareciam não se importar.

Sempre depois de um tempo, ao ficar todo molhado de suor, costumava estirar-se no chão por um momento. Hoje, no entanto, parecia mais misterioso do que de costume. Quem agora o olhasse ficaria completamente intrigado.
Nada estético era, também, o resultado do jogo de luz e sombra - casualmente criado pelas fontes luminosas fluorescentes e de tungstênio vindas da janela ao cruzar com a luz fria azulada do monitor - somado àquele que ali bizarramente se encontrava entre constantes mudanças de intercambiáveis posições, e à sua mais nova ereção. Com tudo isso obtinha-se absolutamente nada. Aliás, sabe-se lá de onde veio o mandamento para que seu membro se prostrasse daquela forma.

E ele, que provavelmente sequer notou a materialização de seu entusiasmo, mesmo que isso não soe nada razoável , simplesmente deixou o transe e ergueu-se do sofá. Entre pingos de suor e bater de coxas, correu diretamente para a única fonte de luz que ali pertencia.
Aparentemente havia tido uma epifania. Escreveu quase sem parar tudo o que repentinamente havia se esclarecido nas entranhas de sua mente. Não que entendera melhor a vida, ou muito menos as mulheres que passara a odiar depois de muito amor. Mas parecia genial enquanto escrevia.

E se alguém o visse agora, sabe-se lá o que ia pensar.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A faxineira


Em um pequeno apartamento dormia um homem e uma mulher. Lá fora ainda era noite, mas o sol esperava apenas a contagem regressiva para irradiar por aquelas bandas. E era sempre nesse momento de ansiedade solar que aquela mulher se levantaria todos os dias.
Dormindo em meio a um calor denso e úmido, Oluá já podia sentir sua proximidade; em algum lugar não muito longe dali o sol já chegava expulsando a escuridão.
Cobertos por um lençol rasgado, rodeados por paredes sujas e mal acabadas, suavam sobre o velho colchão estampado. Semuj ainda estava em seu sono profundo, mas Oluá aos poucos recuperava seus sentidos; já podia sentir o calor se intensificando. Sua primeira atitude seria descobrir-se, mas inconscientemente sabia que ela também estava a caminho. Aquela maldita. Sabia que logo acordaria, e aquilo a desagradava. Sentia o colchão tornando-se cada vez mais úmido. Sentia seus seios molhados e o suor escorrer pelo pescoço. O calor do corpo de Semuj ao seu lado também se tornava cada vez mais incômodo, fazendo-a desencostar-se afastando suas pernas que suavam onde se tocavam, fugindo para a extremidade da cama.
O apartamento era constituído por apenas um banheiro e o cômodo onde dormiam. As paredes eram de blocos e tijolos sem acabamento, com uma rala tinta verde para disfarçar o mofo, e era decorado apenas por alguns móveis improvisados e coisas empilhadas para formar uma estante, gerando uma harmonia caótica de cores e formas inesperadas. Ali havia muita madeira velha e plásticos de cores intensas como o azul marinho e o turquesa, contrastando com o vermelho velho do chão encerado.
Ainda deitada, Oluá tentava voltar para seu sonho, pois novamente sonhara com o mar. Outro dia ouviu alguém falando sobre o oceano, com uma foto em punho recortada de alguma revista, e desde então passou a sonhar frequentemente com toda aquela água. Nunca havia chegado perto do litoral, sequer sabia para que lado estaria, mas em seus sonhos ela podia flutuar sem rumo pelo resto de sua vida.
Como sempre, alguém bateria loucamente na porta, disparando-lhe o coração; fazendo-a acordar quase engasgando ao inalar com força aquele ar pesado. Sabia quem era, e de certa forma, mesmo dentro de seu barco, já esperava pelo som daqueles endiabrados socos na madeira.
Por algum tempo aquilo vinha se repetindo. No começo até chegara a correr até a porta com vontade de estrangular quem estivesse do outro lado. Mas sempre se contia. Sempre voltava atrás. Apenas olhava pelo visor da porta aquela figura tortuosa de mulher caminhando lentamente pelo corredor. Não havia o que fazer, só podia dar-se por vencida.
“Filha da puta”, pensou ela. “Aquela cretina maldita!”. Revirou-se na cama indignada sem abrir os olhos. Podia sentir moscas voando em volta deles. O quarto todo parecia estar cheio de moscas. E aquelas paredes sujas pareciam acordar junto com ela, exalando seu mau cheiro. “Pensei que ela tinha se cansado disso... Pensei mesmo... E esse corno do Semuj nunca acorda. Até parece que não ouve as batidas na porta! Até parece que não sente esse futum!”
Oluá se revira na cama deitando-se de peito para cima, com braços e pernas estiradas. Abre os olhos lentamente em direção ao teto, e estremece na cama. Vê uma sombra mais densa que a própria escuridão do quarto, mais escura que o próprio breu que se estendia no prédio intocado pelo sol. Sente seu odor e quase ouve sua voz; sente seu bafo exalar por todo o quarto, tocando sua pele e entrando por sua boca. Fecha os olhos e tenta não respirar. O calor intenso a faz suar mais e mais. Sabe que precisa levantar-se dali. O mau cheiro já havia possuído cada canto daquele quarto apertado.
Com um gosto horrível em sua boca, Oluá caminha até a parede oposta à porta, de onde vem o mau cheiro. Ali há uma janela que dá para dentro do próprio prédio. Dali podia-se ver outras janelas e entradas de ar para outros apartamentos. Podia sentir um cheiro de urina, é verdade, mas a brisa que vira e mexe dava as graças naquele miolo do edifício era animadora. Fica ali ainda semi acordada, inalando o ar que vem de fora. “Ontem ela não bateu na porta...”, pensou. “Mas que droga! Pensei mesmo que ela estava se cansando disso tudo...”, choraminga consigo mesma. “Mas ela apenas se esqueceu... Bandida fedorenta! Apenas se esqueceu de bater... Poxa, vida. Até eu às vezes me esqueço disso tudo... Até eu me esqueço...”, resmunga ainda escorada na janela. Um ventinho bem suave entrava por ali, e de alguma forma era o que ela precisava para começar o dia.
Descalça, Oluá caminha até a porta e olha no visor. Lá fora há apenas uma escuridão que se intensifica rumo ao fim do corredor. Ela encosta a cabeça na porta e sente vontade de chorar. O mau cheiro que vem de fora é insuportável.
Abre a porta e ali está, um saco de lixo aberto transbordando podridão. Ela tenta não olhar, mas precisa fechá-lo. Acaba por se agachar diante do saco. Fica de joelhos diante dele, com aquele fortíssimo odor invadindo seu corpo. Tenta prender a respiração enquanto amarra, mas ao acabar seu fôlego inala aquilo com ainda mais força, enojando-se como se tivesse engolido alguma coisa.
Levanta-se e caminha para o corredor. Como não pode simplesmente largá-lo nas escadas como a maioria fazia, já que no final das contas era ela quem tomava conta da limpeza do edifício, vai em direção ao único e lento elevador daquele lugar. E ao caminhar recorda-se do dia que causou aquilo tudo. Constantemente repassava os fatos em sua mente, analisando o que tinha dito e se fazia mesmo sentido aquilo tudo. Mas sempre chegava à conclusão de que não podia ter feito diferente, de que algo diferente devia ser feito agora, isso sim. Precisava acabar com isso.
O lixo ela jogava numa pilha que havia no térreo. Atravessaria um corredor sujo, sentindo pingos de chorume cair entre os dedos dos pés, até sair para o lado de fora do edifício. Ali havia uma estrutura de concreto, de formato largo e circular como um tubo, que atingia a altura de uns três andares do próprio prédio. Subindo uma escada que dava para o topo daquilo, chegava-se à uma plataforma para o arremesso do lixo. Dentro do tubo de concreto chamuscado de preto havia uma pilha de lixo considerável, que pelos cáculos de Oluá faltavam apenas mais uns dois dias para ter que atear foto àquilo tudo.
Ficou ali alguns instantes, admirando a grandiosidade daquele buraco. Dali podia ouvir o som de ratos e baratas voadoras se debatendo, mas já não se incomodava com aquilo. Olhou para cima e viu o céu clarear. O sol ainda não havia surgido, apesar do calor já ter se intensificado com a aproximação da manhã. E nesse momento Oluá sentiu uma fraqueza nas pernas e um forte frio na barriga. Segurou-se nas barras de ferro da escada e jurou ter visto um corpo entre o lixo.

Aquilo tudo
havia começado de forma inesperada. Como Semuj trabalhava na manutenção do prédio, consertando encanamentos, fiações elétricas, e até mesmo reerguendo paredes, sua mulher tornou-se conhecida como alguém que teria boa noção da organização do edifício. E assim Oluá se tornou uma espécie de encarregada da limpeza. Tomava conta da organização daquele edifício juntamente com outras pessoas dispostas a tentar manter as condições mínimas do edifício. Como dependendo do andar o edifício chegaria a ter mais de trinta pequenos apartamentos, os encarregados - escolhidos através das poucas e escassas reuniões, que normalmente eram realizadas durante festas de aniversários ou eventos coletivos – dividiam os andares em regiões para que pudessem atuar de forma menos desgastante. E cada um deles receberia uma pequena ajuda de custos, que muitas vezes significava apenas algumas pequenas doações de comida.
Sendo assim, certo dia Oluá recebeu reclamações de que havia um apartamento cheirando demasiadamente ma
u. Quando ouviu estranhou a reclamação, já que para ela ninguém andava muito cheiroso por ali. E se um apartamente fedia, era problema de quem morava dentro, não fora.
Quando chegou ao vigésimo segundo andar daquele prédio, no entanto, notou um péssimo cheiro de carniça. Pensou que alguém havia morrido por ali; era a única explicação cabível.
E quando apontaram de onde vinha o
mau cheiro pôde apenas temer a conversa. “Talvez sejam corpos mesmo”, pensou consigo mesma. Sabia que ninguém se dava muito bem com aqueles moradores e vice-versa. Caminhou até próximo à porta, mas não teve coragem de bater. Oluá sabia que ali viviam quatro pessoas; todos envolvidos com o tráfico de drogas, armas, e sabe-se lá o que mais. Dizem as más línguas que um deles quem pegava meninas das casinhas pra boate Jazé. Vai saber.
Aquele era um apartamento bem maior que o seu, e sabia que ali haviam sido feitas algumas modificações. Seu próprio marido havia sido chamado algumas vezes para ajudá-los com umas reformas, que incluía até uma varanda pro lado de fora. Já esse mal cheiro era novo.
Ficou ali com a camiseta tapando as narinas e pensando por um tempo.
A pessoa que indicara o apartamento já havia retornado para casa. Então Oluá, toda vestida de verde, com suas firmes coxas morenas à mostra,  toma coragem, bate na porta e espera de nariz destapado por uma resposta.
Quando a porta abre
ela se depara com Inê, mulher de um dos capangas da boate de Jazé. Inê olha para Oluá, medindo-a completamente. Espera que algo seja dito, e a encara impaciente.

- Olá, Inê... Não queria atrapalhar, mas é que... Andaram me dizendo aí, quero dizer, o pessoal do andar reclamou pra mim que... – disse lentamente
, quase gaguejando.
- Espera aí! Quem reclamou do quê? – disse Inê com uma feição desagradável.
- Então, o pessoal aí tá reclamando... Não sei se você pode sentir, mas é que... Você sente? Tá um mau cheiro...
- Ma
u cheiro? Que tem mau cheiro? – disse Inê de forma agressiva, no entanto sem levantar a vóz.
- Então, tá um cheiro meio ruim vindo do seu apartamento, não sei se pode sentir...
- O cheiro do meu apartamento tá te incomodando, é isso?
- Não,
espera um pouco! Não é bem assim... É que o pessoal do andar...
- Calma
aí, o que eu quero saber é isso: o cheiro tá te incomodando ou não tá? Porque se não tiver tudo bem... Mas se não tivesse você não taria aqui na minha porta, né mesmo? Então vamos assumir as coisas por aqui!
Frustrada, Oluá olha para trás procurando algum vizinho para apoiá-la, mesmo sabendo que não encontraria.
- Então, o cheiro tem incomodado sim. Ouvi algumas reclamações dos vizinhos e vim dar uma olhada
no apartamento, pra saber o que podia estar cheirando tão forte – disse Oluá tentando manter-se calma.
- Agora você quer entrar na minha casa então, é isso? Quer
fazer uma inspeção aqui dentro? O que que é? Quer que eu chame meu marido pra ver se ele te deixa entrar, quer?
- Não, não foi isso que eu quis dizer! – disse Oluá quase dando um passo para trás.
- Rô! Rô! Vem cá! Essa filha da puta da Oluá aqui tá querendo fazer uma investigação no nosso apartamento, é possível?
- Não, não! Calma aí! Só disse que vim ver o que tá cheirando forte! Mas só por causa das reclamações, não tenho nada a ver...
- Não tem nada a ver agora, né? Ninguém veio aqui reclamar, veio? Quem tá aqui é você! Você veio reclamar! Você que nem mora por aqui que veio dizer que minha casa fede!
Que tá suja que nem um Diabo! E agora quer entrar... Fazer investigação!
- Putz, Inê! Desculpa pelo mal entendido, mas você sabe como é, eu encarregada pelo bem caminhar do prédio, o pessoal me cobra esse tipo de coisa, sabe? Então... É assim, os vizinhos ao invés de virem aqui foram reclamar pra mim, mas não tenho nada a ver com a reclamação não!
- Eu não sei como é não. O que eu sei é que eu paguei direitinho esse mês. Dei quase um kilo de arroz pros ajudantes! Não tô devendo nada! Pelo que eu sei tem gente que nem tá ajudando aí, e isso você não tá reclamando, né? Vem reclamar de mim? Ah tá! Eu sei direitinho como é!
Oluá vendo que não conseguiria resolver dessa forma, respirou e, assustada, disse:
- Tudo bem, tudo bem! Só me diz qual o problema do cheiro que eu peço pro meu marido vir aqui ajudar! Tá bom?
- Olha, sua filha de uma puta! Aqui não tem problema nenhum não, aliás, não tínhamos problema n
enhum até agora! Você, você... Por que você não vai tomar no cú ao invés de me encher o saco no meio do dia, hein? – berra Inês, quase saindo do apartamento - Você não tem que se intrometer na vida das pessoas não, tá bom? Cuida do prédio da minha porta pra fora, aqui dentro de casa não te interessa! Tá bom assim? – grita Inês, de repente olhando para dentro de casa.
De sangue quente, Oluá se segura para não gritar de volta. Se contém, mantém a postura, respira e quando começa a formular uma resposta o marido de Inês aparece na porta.
- Boa tarde, Oluá... Algum problema? – diz Roni de forma imponente.
- Não, nenhum problema...– responde Oluá, sentindo-se menos nervosa,
apesar de seu olhar preocupado - Só vim comunicar uma reclamação feita pelos vizinhos...
- Pois bem... Inê, entra por favor! – diz ele de forma seca, olhando de canto – Pois me diga, qual o problema? Ouvi minha mulher gritando, espero que não a leve à sério, ela é meio biruta às vezes. Somos pessoas de bem, como bem sabe.
Oluá respira fundo ao ver o suspeito volume em sua cintura. Sabe que ele sempre anda armado, e o que ele quer dizer por “pessoas de bem”.
- Eu agradeço, Roni. O que vim dizer é que... Bom, não sei se percebe mas tem um cheiro muito forte vindo do seu apartamento, e isso tem desagradado os vizinhos. É isso que vim dizer, me desculpe! – diz ela quase olhando para o chão.
Roni ri, sai para o corredor do prédio e encosta a porta atrás dele.
- Vou falar algo que não devia, mas preciso explicar, não é mesmo? – diz ele sorrindo, divertindo-se com o assunto – Minha mulher não deve bater muito bem, sabe? Então um dia ela chegou aqui falando que tinha comprado carne por menos da metade do preço
e tal, mas claro que quando fomos comer a carne estava totalmente ensossa! Tava ruim pra caralho! Mas não era carne de rato, não! Ainda não estamos comendo como se come nas casinhas, né? Haha! – diz Roni rindo como se tivesse dito a melhor piada do dia -  Só que você sabe como é, né? Ninguém pode desperdiçar comida, né?! Então, perguntando aqui, perguntando ali, a gente descobriu um produto que você joga na carne que aí dá pra comer. Não fica lá seus cem por cento, não pode-se dizer que é gostosa, mas dá pra comer – disse ele quase sussurrando, olhando para os lados. – Aí o que a gente fez?! Compramos kilos e kilos de carne estragada à preço de banana! Na viagem da carne pra cá sempre tem uma parte que estraga. Até pegamos umas de graça! – disse ele gesticulando - Descobrimos um lugar aí... Dizem que tem louco pra tudo, né não?! Pois é, e agora tem quem compre dela... Tamo fazendo um dinheirinho aí... – disse ele sorrindo – Mas aí! – diz ele agora sério, mudando a forma de olhar – Não preciso nem comentar, né? Silêncio absoluto! Pode ter certeza que dessa carne não vou vender por aqui não, tá sabendo? Vendo só lá nas casinhas, tá sabendo? Ainda tem gente que recebe em dinheiro por lá... Mas aí, silêncio total! – termina ele, encarando-a de forma ameaçadora.
Mas antes de ir, Oluá faz mais uma pergunta.
- Mas se vocês “salvam” a carne podre, por que fica esse cheiro? – diz ela quase se virando pra ir embora antes de ouvir a resposta.
- Ah, isso aí é o resto que não tem jeito. Sempre tem uma quantidade que acaba tendo q
ue jogar fora de qualquer jeito. E se a gente mistura carne podre no meio o pessoal não compra mais, né? Mas aí fica esse resto... E aí que fede... Mas pode deixar, vou ver com ela pra não deixar acumular isso por aqui, tá bom? Vou falar pra ela jogar essa merda fora todo dia, assim eu não te atrapalho nem você me atrapalha, resolvido?
Oluá concorda.
Dentro do apartamento, porém, Inê fica quase sem fôlego ao ouvir a conversa. Odeia quando seu marido a manda deixar a conversa daquele jeito. Odeia quando ele a faz entrar com o rabinho entre as pernas como se fosse um animalzinho de estimação bobo que não sabe o que faz. Inê sente que respirar torna-se cada vez mais difícil. Seu pulmão parece não saber o que fazer com aquele ar quente e pesado, deixando-a ofegante.
Sentindo sua garganta queimar como um câncer, ela sente uma raiva crescente. Oluá havia chegado à sua casa batendo em sua porta para dizer em sua cara que tudo ali fedia. Ouviu de sua boca que ela mesma fedia. Que era tão suja quanto os ratos e baratas do lixão. Com uma faca na mão Inê abre a geladeira e tira mais um pedaço de carne podre para ser salvo. Joga um pó amarelado na carne e mergulha a peça cortada ao meio numa tijela. Só de tocar na carne sente que ela quase se desmancha em suas mãos. E durante o processo encontra a parte que terá que cortar fora, uma fina camada externa que se desfaz dentro daquele líquido fétido.

E agora, por causa de Inê, ela seria encarregada de carregar aquela coisa nojenta para o lixão. “Todos os dias ele falou”, lembrou-se. E nesse mesmo momento ela teve uma idéia. “Se Oluá queria tanto se livrar daquilo, se a incomodava tanto, por que não levasse ela mesma? Por que não? Ela que é a faxineira dessa merda mesmo!” – pensou Inê.
À partir da manhã seguinte, sem que seu marido soubesse, Inê passou a levar os sacos de restos de carne podre à porta de Oluá, que ficava onze andares abaixo dela. Faria a entrega todos os dias bem cedo, antes do sol nascer. E antes de sair, para certificar-se de que ela acordaria, bateria
violentamente na porta. 

(Trecho de um projeto em andamento...)



quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dinaruê nepala u maia cadedê

náchita! maruê anôm...
confitá! umbaluê, amarê conim!
onim auê... ô, nunim! comasta dê!
di dê mará; mará di mim... ô, nuê! ô, auê onim!

paváca, padedê... ássi, on natá marê!
sinuacam, patê nuá! on mistanam... pássi baiacá!

paraneno... paranareno...
parapá, naiê! paraiá, noá!
on mistanan... ô, marauê! ô, náchita marê!

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fumaça de frio

Ele não fumava. Nunca suportou o cheiro, muito menos o gosto; e todas as vezes que experimentou o cigarro o expantou de dentro pra fora. Nem precisava tossir para convencer alguém de que não havia gostado. Dava para ver que era péssimo. Engraçado que nunca tentaram convencê-lo do contrário. Todos sabiam que era péssimo.
Mas há sempre um porém, não há?
E naquele dia frio, frio como a cidade havia se acostumado a ser, ele caminhava lentamente até às luzes do semáforo. Do outro lado já via uma mulher gorda no caixa de uma padaria. Em meio à caixas de cigarro, balas e quinquilharias. Era na verdade um bar, ou um boteco. Será que ela aceitaria um vale condução por dois cigarros soltos?
Mas o cigarro não seria para ele. Compraria à contra-gosto.
Ah, mas ele fazia questão de ir até lá para ela. Não discutiria o mal que fazia. Fazia questão de ser cordial o bastante em buscar-lhe os cigarros. Ele sabia que citar a morte seria tido como exagero. Assim como chorar ao ver alguém sem o cinto no carro - e isso ele jura que já fez.
Mas teria, obviamente, o prazer em tragá-los em sua frente; pois ela sabia o mal que lhe fazia, e de certa forma ela mesma infligiria.
E ele a olharia nos olhos, como se perguntando "por que faz isso comigo?".


Havia sempre uma pontinha de esperança. Um desejo que sempre antecedia o trago; uma vontade confusa de gostar. Talvez o único motivo real de alguém se apaixonar. Essa vontade confusa de gostar.
E após um longo beijo com um gosto terrível de cigarro, ele sentia o prazer de esquecer que ela gostava. Não faria sentido, afinal.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Debate sobre a sinceridade

Às vezes é difícil escrever de forma sincera.
Definir sinceridade já seria difícil, mas agir através desse conceito de forma totalmente pura... Hesitaria para não dizer "impossível".
E isso digo apenas quanto ao ato de escrever. Imagina aceitarmos como condição à sinceridade todos os atos possíveis da mente e do corpo humano.
Engraçado pensar no corpo humano dessa forma. O que seria um ato físico livre de tudo que contrariasse sua sinceridade? Um gesto corporal puramente sincero. Honesto, livre de vícios, de receios, de medos, de hipóteses futuras, de necessidades de aceitação.
Aliás, e se eu perguntasse o contrário? O que seria um gesto corporal, uma ação simplesmente física vinda do nosso corpo, que não condizesse com a verdade?
Que verdade seria essa? Ou, como seria essa mentira?

Dois personagens: um homem e uma mulher

Para contradizer - ou não -, aquele cara era mais sentimental que sua amada. Uma definição curta e provavelmente exagerada. Mas, simplificadamente, honesta. Ele era quem dizia as conhecidas, e muitas vezes supervalorizadas, frases românticas. Ou, se preferir, as famosas frases de efeito. Mas isso seria pura maldade.
Talvez fosse melhor, antes mesmo de sermos apresentarmos à mulher, entrarmos nesse fascinante mundo da mente do cara apaixonado deixando de lado um narrador tão cético. Tão apoético. Tão frustrado e técnico; praticamente um funcionário público da literatura.

Décima terceira noite sem vê-la, narrada por si mesmo, o personagem:

Dor nas costas. Computador. Vontade de estralar os dedos. Coceira no ouvido. Barulho da rua. Barulho do computador. Alguém na sala com a tv ligada. Dor nas costas. A sensação das meias nos pés. Barulho do teclado. Coceira no ouvido. Pausa para estralar os dedos. Tentativa de estralar o pescoço. Sensação de desconforto. Coceira nos olhos. Coceira no rosto. Barulho de ônibus. Lembranças daquilo que havia condicionado a pensar menos. Algum som estranho vindo de longe. Talvez um elefante numa jaula gigante no meio de um terreno baldio. Sonho imperceptível. Fragâncias de imagens. Conversão de sons ouvidos em sons imaginários. Computador em frente. Coceira alternante em diversas partes do corpo. Barulho da cadeira ao tentar achar uma melhor posição. Lembranças dela. Busca criativa na transformação do espaço visível. Sensação de sonho. Conflito entre desejos e fugas. Ela. Sons entrelaçando-se no subconsciente. Uma brisa fresca da janela. A sensação do toque da roupa na pele. Lembranças dos sorrisos dela. Tentativas de contato telepático. Simulações de conversas. Ausência de percepção do presente. As cores dos momentos que sente falta. Saudades. Tentativas de deixar o estado contemplativo imaginário. Tentativas de evitar as lembranças. Sensações deslocadas e desconexas. Música. Aceitação da saudade. Busca impaciente de resquícios dela em sua mente. Vazio. Esfrega uma mão no braço. Esfrega o rosto. Coceira no olho. Sites da internet. Links. Entretenimento. Notícias. Guerras em países distantes. Fotos dela.

Para um narrador talvez houvesse mais barulho e coceira do que amor ali. Ou mesmo mais ansiedades e receios. Vindos eles de um egocentrismo, de uma loucura ideal, de uma busca eterna de mostrar-se no presente de acordo com seus cálculos obtidos no decorrer da vida acompanhada apenas por si mesmo; de olho num futuro almejado. Mas, se menosprezarmos o narrador intelectual e entendido das coisas, podemos ir cada vez mais fundo.

Última noite que passaram juntos, narrada por suas lembranças:

Perfumes fantásticos exalam de seus corpos e percorrem todo o mundo que já não é a Terra e que gira em diferentes direções transmutando suas formas e configurações dos oceanos cheios de seres fantasmagóricos que brilham no escuro em diferentes cores e ritmos sempre acompanhados por milhares de outros seres que não podem ser chamados de peixes porque são mágicos e cheiram tão bem mesmo debaixo d'água e mesmo durante a noite dançam lá fora no vácuo como se fosse o primeiro e último dia de suas vidas nesse universo que se forma diante de seus olhos e os chama a cantar e compôr músicas com suas lindas vozes em meio às suas danças e vôos aos mais longínquos cantos daquela cama flutuante entre paredes que deixam de existir sempre que se fecham os olhos em meio aos cabelos e toques de diferentes intensidades e propósitos gerando sensações de alegria e de dor e de prazer e de vida e de morte e de cura e felicidade de estarem vivendo juntos em meio a todo o caos das infinitas possibilidades de formações rochosas que enfeitam os quintais das cabanas sobre a areia infindável que fornece lugar para as ondas subirem e descerem suas águas desde o nascimento dos rios às quedas livres que criam sinfonias sonoras chamadas de cachoeiras de água doce onde o corpo nu se alimenta de cores e perfumes que para sempre continuam a exalar quando são tocados.

Da figura dessa mulher, até aqui inigmática e fantasiosa, já não podemos esperar tantas frases de efeito. Ou frases românticas se preferir. Mas, se perguntarmos ao nosso personagem masculino, ele certamente, apesar de tendencioso, afirmaria que ela - musa ideal - apesar de não ser tão afiada como ele quanto às declarações, não pecava na falta de amor. Poderia ser dito o que quisesse. E é verdade, ela não se entusiasmaria nem um pouco com essa busca incessante de afirmação e reafirmação desse sentimento tão confuso e efêmero. E para nosso personagem, mesmo se isso fosse escrito e registrado com reconhecimento de firma, isso não afetaria em nada. Para ele, ela o sentia tanto quanto ou até mais ele a sentia. Apesar da falta de suporte dito ou escrito. Mesmo sem sequer uma escapadinha que fosse ao seu rigor militar em não se expressar verbalmente à ele. Para nosso personagem, ela era completamente ou mesmo puramente sincera quanto aos seus sentimentos, quanto ao seu sentir. Mas não na forma verbal do conceito; sua sinceridade atingia o grau máximo possível de pureza em sua expressão física.

Se tal mulher tivesse a chance de se reconhecer como foi caracterizada aqui, e pudesse deixar um recado, provavelmente seria o que está escrito a seguir:

Se fosse possível captar e medir o nível de pureza da sinceridade do nosso corpo, decodificá-la em palavras seria no mínimo impróprio. Assim como narrar um quadro ou uma música não faria sentido, exprimir aqui de forma verbal o que não tem como suporte tal linguagem senão a corpórea seria um absurdo. Deixo então para que imaginem o que seria isso, o que seria essa fluência de movimentos desamarrados de qualquer pensamento disforme, o que seria dizer apenas verdades através de gestos e olhares e toques e sutilezas do corpo.
É tão possível nos enganarmos quando traduzimos o que sentimos em palavras. Às vezes as palavras simplesmente não existem, e para dizermos uma sensação temos que escrever tanto que vira um texto enorme e confuso. E se eu posso dizer algo coerente, eu que já fui tachada de incapaz de uma expressão verbal de sinceridade pura, digo que procurem essa sinceridade em todas suas formas possíveis. Quem sabe ainda inimagináveis.

Não seria isso, afinal, arte?

segunda-feira, 28 de março de 2011

Verde chá com tons noturnos

Na tentativa de compôr musicalmente através de cores, texturas e sensações, tentei agregar ao resultado (musical) uma das imagens que venho "estudando" nesse mesmo sentido. Para o vídeo acabei usando um efeito simples, meio bobo, mas que tem feito sentido pra mim, dentro de tudo que tenho procurado por enquanto e minha falta de experiência no áudio-visual.
Acredito que ainda faltam elementos visuais para a atividade "minusculamente cortante" que mantém uma textura tanto agradável como dolorosa; o que tem sido essencial para a composição dessa música. E por isso (além da falta de fluência rítmica da trasnformação/pixelização) tenho esse "vídeo" como estudo apenas, e de caráter certamente provisório.