Às vezes é difícil escrever de forma sincera.
Definir sinceridade já seria difícil, mas agir através desse conceito de forma totalmente pura... Hesitaria para não dizer "impossível".
E isso digo apenas quanto ao ato de escrever. Imagina aceitarmos como condição à sinceridade todos os atos possíveis da mente e do corpo humano.
Engraçado pensar no corpo humano dessa forma. O que seria um ato físico livre de tudo que contrariasse sua sinceridade? Um gesto corporal puramente sincero. Honesto, livre de vícios, de receios, de medos, de hipóteses futuras, de necessidades de aceitação.
Aliás, e se eu perguntasse o contrário? O que seria um gesto corporal, uma ação simplesmente física vinda do nosso corpo, que não condizesse com a verdade?
Que verdade seria essa? Ou, como seria essa mentira?
Dois personagens: um homem e uma mulher
Para contradizer - ou não -, aquele cara era mais sentimental que sua amada. Uma definição curta e provavelmente exagerada. Mas, simplificadamente, honesta. Ele era quem dizia as conhecidas, e muitas vezes supervalorizadas, frases românticas. Ou, se preferir, as famosas frases de efeito. Mas isso seria pura maldade.
Talvez fosse melhor, antes mesmo de sermos apresentarmos à mulher, entrarmos nesse fascinante mundo da mente do cara apaixonado deixando de lado um narrador tão cético. Tão apoético. Tão frustrado e técnico; praticamente um funcionário público da literatura.
Décima terceira noite sem vê-la, narrada por si mesmo, o personagem:
Dor nas costas. Computador. Vontade de estralar os dedos. Coceira no ouvido. Barulho da rua. Barulho do computador. Alguém na sala com a tv ligada. Dor nas costas. A sensação das meias nos pés. Barulho do teclado. Coceira no ouvido. Pausa para estralar os dedos. Tentativa de estralar o pescoço. Sensação de desconforto. Coceira nos olhos. Coceira no rosto. Barulho de ônibus. Lembranças daquilo que havia condicionado a pensar menos. Algum som estranho vindo de longe. Talvez um elefante numa jaula gigante no meio de um terreno baldio. Sonho imperceptível. Fragâncias de imagens. Conversão de sons ouvidos em sons imaginários. Computador em frente. Coceira alternante em diversas partes do corpo. Barulho da cadeira ao tentar achar uma melhor posição. Lembranças dela. Busca criativa na transformação do espaço visível. Sensação de sonho. Conflito entre desejos e fugas. Ela. Sons entrelaçando-se no subconsciente. Uma brisa fresca da janela. A sensação do toque da roupa na pele. Lembranças dos sorrisos dela. Tentativas de contato telepático. Simulações de conversas. Ausência de percepção do presente. As cores dos momentos que sente falta. Saudades. Tentativas de deixar o estado contemplativo imaginário. Tentativas de evitar as lembranças. Sensações deslocadas e desconexas. Música. Aceitação da saudade. Busca impaciente de resquícios dela em sua mente. Vazio. Esfrega uma mão no braço. Esfrega o rosto. Coceira no olho. Sites da internet. Links. Entretenimento. Notícias. Guerras em países distantes. Fotos dela.
Para um narrador talvez houvesse mais barulho e coceira do que amor ali. Ou mesmo mais ansiedades e receios. Vindos eles de um egocentrismo, de uma loucura ideal, de uma busca eterna de mostrar-se no presente de acordo com seus cálculos obtidos no decorrer da vida acompanhada apenas por si mesmo; de olho num futuro almejado. Mas, se menosprezarmos o narrador intelectual e entendido das coisas, podemos ir cada vez mais fundo.
Última noite que passaram juntos, narrada por suas lembranças:
Perfumes fantásticos exalam de seus corpos e percorrem todo o mundo que já não é a Terra e que gira em diferentes direções transmutando suas formas e configurações dos oceanos cheios de seres fantasmagóricos que brilham no escuro em diferentes cores e ritmos sempre acompanhados por milhares de outros seres que não podem ser chamados de peixes porque são mágicos e cheiram tão bem mesmo debaixo d'água e mesmo durante a noite dançam lá fora no vácuo como se fosse o primeiro e último dia de suas vidas nesse universo que se forma diante de seus olhos e os chama a cantar e compôr músicas com suas lindas vozes em meio às suas danças e vôos aos mais longínquos cantos daquela cama flutuante entre paredes que deixam de existir sempre que se fecham os olhos em meio aos cabelos e toques de diferentes intensidades e propósitos gerando sensações de alegria e de dor e de prazer e de vida e de morte e de cura e felicidade de estarem vivendo juntos em meio a todo o caos das infinitas possibilidades de formações rochosas que enfeitam os quintais das cabanas sobre a areia infindável que fornece lugar para as ondas subirem e descerem suas águas desde o nascimento dos rios às quedas livres que criam sinfonias sonoras chamadas de cachoeiras de água doce onde o corpo nu se alimenta de cores e perfumes que para sempre continuam a exalar quando são tocados.
Da figura dessa mulher, até aqui inigmática e fantasiosa, já não podemos esperar tantas frases de efeito. Ou frases românticas se preferir. Mas, se perguntarmos ao nosso personagem masculino, ele certamente, apesar de tendencioso, afirmaria que ela - musa ideal - apesar de não ser tão afiada como ele quanto às declarações, não pecava na falta de amor. Poderia ser dito o que quisesse. E é verdade, ela não se entusiasmaria nem um pouco com essa busca incessante de afirmação e reafirmação desse sentimento tão confuso e efêmero. E para nosso personagem, mesmo se isso fosse escrito e registrado com reconhecimento de firma, isso não afetaria em nada. Para ele, ela o sentia tanto quanto ou até mais ele a sentia. Apesar da falta de suporte dito ou escrito. Mesmo sem sequer uma escapadinha que fosse ao seu rigor militar em não se expressar verbalmente à ele. Para nosso personagem, ela era completamente ou mesmo puramente sincera quanto aos seus sentimentos, quanto ao seu sentir. Mas não na forma verbal do conceito; sua sinceridade atingia o grau máximo possível de pureza em sua expressão física.
Se tal mulher tivesse a chance de se reconhecer como foi caracterizada aqui, e pudesse deixar um recado, provavelmente seria o que está escrito a seguir:
Se fosse possível captar e medir o nível de pureza da sinceridade do nosso corpo, decodificá-la em palavras seria no mínimo impróprio. Assim como narrar um quadro ou uma música não faria sentido, exprimir aqui de forma verbal o que não tem como suporte tal linguagem senão a corpórea seria um absurdo. Deixo então para que imaginem o que seria isso, o que seria essa fluência de movimentos desamarrados de qualquer pensamento disforme, o que seria dizer apenas verdades através de gestos e olhares e toques e sutilezas do corpo.
É tão possível nos enganarmos quando traduzimos o que sentimos em palavras. Às vezes as palavras simplesmente não existem, e para dizermos uma sensação temos que escrever tanto que vira um texto enorme e confuso. E se eu posso dizer algo coerente, eu que já fui tachada de incapaz de uma expressão verbal de sinceridade pura, digo que procurem essa sinceridade em todas suas formas possíveis. Quem sabe ainda inimagináveis.
Não seria isso, afinal, arte?
Eu cocei o ouvido. Senti as meias nos pés e a sensação do toque da roupa. Cocei o pescoço também. Senti-me desconfortável na cadeira mas não me mexi. Continuei a ler. E sem brisa nenhuma, me arrepiei. Veio de dentro. Veio daquela alegria, mesmo que sutil, que a gente tem quando lê algo que é diferente do que já leu e é agradável - ou mais que isso.
ResponderExcluirSim, é arte. O amor, as expressões do amor, e o seu texto.
Haha, juro que desde que o escrevi sempre tinha vontade de apagá-lo. Pela primeira vez eu posto algo aqui e me arrependo... Mas segurei a vontade e deixei. hehe. E com seu comentário agora acho q valeu a pena tê-lo dado uma chance de ser lido...rs. Valeu!
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