terça-feira, 28 de junho de 2011

Fumaça de frio

Ele não fumava. Nunca suportou o cheiro, muito menos o gosto; e todas as vezes que experimentou o cigarro o expantou de dentro pra fora. Nem precisava tossir para convencer alguém de que não havia gostado. Dava para ver que era péssimo. Engraçado que nunca tentaram convencê-lo do contrário. Todos sabiam que era péssimo.
Mas há sempre um porém, não há?
E naquele dia frio, frio como a cidade havia se acostumado a ser, ele caminhava lentamente até às luzes do semáforo. Do outro lado já via uma mulher gorda no caixa de uma padaria. Em meio à caixas de cigarro, balas e quinquilharias. Era na verdade um bar, ou um boteco. Será que ela aceitaria um vale condução por dois cigarros soltos?
Mas o cigarro não seria para ele. Compraria à contra-gosto.
Ah, mas ele fazia questão de ir até lá para ela. Não discutiria o mal que fazia. Fazia questão de ser cordial o bastante em buscar-lhe os cigarros. Ele sabia que citar a morte seria tido como exagero. Assim como chorar ao ver alguém sem o cinto no carro - e isso ele jura que já fez.
Mas teria, obviamente, o prazer em tragá-los em sua frente; pois ela sabia o mal que lhe fazia, e de certa forma ela mesma infligiria.
E ele a olharia nos olhos, como se perguntando "por que faz isso comigo?".


Havia sempre uma pontinha de esperança. Um desejo que sempre antecedia o trago; uma vontade confusa de gostar. Talvez o único motivo real de alguém se apaixonar. Essa vontade confusa de gostar.
E após um longo beijo com um gosto terrível de cigarro, ele sentia o prazer de esquecer que ela gostava. Não faria sentido, afinal.

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