Nem pensou. Correu como um desgraçado. Descalço do pé direito e com uma havaiana no pé esquerdo ele correu. Era escadaria, subida de terra batida. Ía se escorando onde dava, e pegando velocidade mesmo quando já não aguentaria andar.
Quem o via correndo só desviava. Quando dava tempo; quando não dava o muleque trombava, não pedia desculpas e continuava seu rumo.
- Filho da puta!
Alguém viu e tentou segurá-lo. Outro com o cigarro na mão deu uma gargalhada. Mas quem viu a expressão em seu rosto não achou graça. O muleque tava correndo de desgraça.
- Entra pra dentro, filha! Fecha a porta! Vou ver o que o muleque aprontou. - e saiu o velho atrás dele. Mas não correu não, só deu sinal pra outro muleque sentado no pé da vendinha e desçeu a viela.
A menina, de porta fechada, olhou da janela.
Desce escada, pula buraco, pula até um outro muleque jogando bolinha de gude. E quase pisa no da frente.
- Ei, ow! Filho da puta!
Ofegante ele já nem acredita que está vivo. Parece que está sonhando que corre. Já não sente mais nada. Nem pernas, nem pulmão. O suor que ardia o olho já nem incomoda mais.
Mas ele continua correndo. Quem o via agora ficava assustado.
- Viu o muleque de pé sangrando e um chinelo só, correndo que nem louco?
- Vi não... cadê?
- Ali, oh!
- Cadê?
- Virou já...
