segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tumulto na favela

-Corre, filho da puta!
Nem pensou. Correu como um desgraçado. Descalço do pé direito e com uma havaiana no pé esquerdo ele correu. Era escadaria, subida de terra batida. Ía se escorando onde dava, e pegando velocidade mesmo quando já não aguentaria andar.
Quem o via correndo só desviava. Quando dava tempo; quando não dava o muleque trombava, não pedia desculpas e continuava seu rumo.
- Filho da puta!
Alguém viu e tentou segurá-lo. Outro com o cigarro na mão deu uma gargalhada. Mas quem viu a expressão em seu rosto não achou graça. O muleque tava correndo de desgraça.
- Entra pra dentro, filha! Fecha a porta! Vou ver o que o muleque aprontou. - e saiu o velho atrás dele. Mas não correu não, só deu sinal pra outro muleque sentado no pé da vendinha e desçeu a viela.
A menina, de porta fechada, olhou da janela.
Desce escada, pula buraco, pula até um outro muleque jogando bolinha de gude. E quase pisa no da frente.
- Ei, ow! Filho da puta!
Ofegante ele já nem acredita que está vivo. Parece que está sonhando que corre. Já não sente mais nada. Nem pernas, nem pulmão. O suor que ardia o olho já nem incomoda mais.
Mas ele continua correndo. Quem o via agora ficava assustado.
- Viu o muleque de pé sangrando e um chinelo só, correndo que nem louco?
- Vi não... cadê?
- Ali, oh!
- Cadê?
- Virou já...

Seleção de cenas

Ele sabia como aquilo funcionava. A cada dia aprimorara mais e mais seu método e, agora que o usaria mais do que nunca, estava perfeito.
Há quanto tempo vinha desenvolvendo-o já não sabia. Desde sempre talvez. Mas não lhe restavam dúvidas de que só agora poderia desfrutá-lo por completo. Ele, afinal, era seu dono. E o segredo para chegar onde chegou estava nos detalhes.
Respirou fundo. Apagou a luz...e fechou os olhos.
Sabia que muito em breve não mais precisaria desse ritual todo, mas tudo era questão de controlar a ansiedade agora.
Sua respiração foi ficando cada vez mais lenta. Seu coração já batendo bem devagarinho...até que sentiu a luz invadir seus olhos. Tudo o que via era aquele tom avermelhado da luz do sol convidando às pálpebras dos olhos a se abrirem.
Sentiu o friozinho daquela manhã, e abriu os olhos: ali estava ela!
Estava coberto naquele grosso edredon no qual ela tanto se orgulhava ter comprado em promoção. Nem ele nem ela estavam vestidos. Tudo o que via, porém, eram suas costas e seu cabelo iluminado.
Seu coração permaneceu calmo. Sua respiração continuou bem leve. Leve o suficiente para se aproximar de seu pescoço e sentir seu cheiro sem acordá-la. A sensação de tocar aqueles cabelos novamente o enchia de sentimentos mistos. Era muita tristeza. Muito tesão. E muita alegria.
Sentou-se na cama ainda do lado da parede. Olhou para as próprias mãos e nesse momento quase enganou-se a si mesmo. Era tudo muito real.
Sorriu e chorou. Pois havia funcionado. Cada detalhe que naquele dia se forçou a prestar atenção agora se mostrava vivo em sua recordação.


Obs: O que ele tinha agora era uma cópia perfeita daquela que ele acreditou que fosse, e que hoje já não era mais.
Por diversas vezes ele fez isso, atentou-se aos menores detalhes dos mais cotidianos cenários, e, principalmente, de sua amada.
Fez tudo isso ao antecipar o fim. E agora revisitava suas cenas prediletas captadas enquanto ela lhe escapava.

Sociedade dez anos depois do ano 2000

Nem carros voadores nem vôos tripulados pra Marte.
Hoje deixamos pessoas morrerem quando a chuva vem.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Puta menino teimoso que queria correr no lago!

O cenário era azul. Não que o dia estivesse com um céu aberto bonito, mas porque na visão do menino tudo andava meio azulado. Com o preto das sombras bem demarcado, e um verde meio desbotado.
Muito calor. Mas pra ele não estava aquele dia amarelado. Tudo era meio azul mesmo. O céu tava meio nublado, com nuvens negras brigando por espaço. Mas os reflexos no lago eram meio azulados.
No dia anterior ele vira na tv, e brincara com seu primo dizendo que faria que nem aquela lagartixa que corre tão rápido, mas assim bem rápido mesmo, que nem dava tempo de afundar a patinha que já tava do outro lado.
Hoje o primo não tava, então correra pro lago.
Estava agora respirando fundo. Dando pulinhos pra esticar as pernas sem tirar os olhos do lago. Nem parou muito pra pensar na distância do outro lado.
Focou seus olhos na água que espirrou e viu que era um sapo. Não, sapos não flutuam que nem lagartos.
Ou era lagartixa aquele bichinho danado?
Pegou distância, deu uma corridinha mas parou encucado. Coçou a cabeça e olhou pra baixo. Talvez assim não funcionasse, era melhor ficar descalço.
- AAAAaaahhh!!!
Numa estilingada ele correu. Braço pra frente e braço pra trás. Gritando sempre e cada vez mais. Um pé na grama e outro no barro.
De olhos fechados sentiu o pé molhado. Gritou mais alto e foi ainda mais rápido.
Quando abriu os olhos ficou desesperado. O filho da puta caiu no meio do lago.


Noite de verão

Esperando na fila da cerveja, em frente a um boteco de rua próximo à praia, do nada ela ouve alguém dizer:
- Oi, meu nome é Arlei.
Foda-se, pensou consigo mesma. Mas não respondeu. Apenas o olhou pra ver se não era ninguém que ela conhecesse mesmo. Vendo que não era, desconsiderou qualquer resposta e voltou a focar-se na fila.
- Porra, mas é metida mesmo, hein?
Apenas respirou fundo tentando não se emputecer, mas se emputeceu mesmo assim.
- Qual o seu nome?
- Mas o que você quer, hein?
- Porra... nada não, ué! Só tô conversando...
Novamente ela o ignorou. Deu uns três passos adiante, já quase chegando sua vez pra pegar sua gelada. A noite era bem quente, como as noites baianas de verão. Ali ao lado se encontravam suas amigas, todas já meio bêbadas, mas ela um pouco menos. Ao fundo ouvia-se música ao vivo tocando bem alto. Aquele ponto da praia era particularmente agitado durante a noite, e ela, de saia azul e bluzinha branca, bebia naquele mesmo boteco toda sexta.
- Meu nome é Arlei, e o seu?
- Mas você é chato, hein? Se eu disser meu nome vai embora?
- Depende... se continuar chata assim comigo...
- É Shirlei. Meu nome é Shirlei...
- Porra, rima com o meu!
- Três latinhas por favor!
Ele rodeou, olhou pra praia, fingiu que ía embora, mas voltou.
- Você é da onde, Shirlei?
- Puta merda, nem gelada não tá.
- Ô João, troca as cervejas aqui pra moça, vai! Pega aquelas do fundo que gelada eu sei que você tem!
Ela olhou pra ele, mas antes de dizer qualquer coisa ele já estava trocando as cervejas pra ela.
- Aqui, oh!
- Obrigada...
- Então, da onde você é?
Ela tirou os cabelos do rosto, abriu uma latinha e respondeu.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Evitava olhar pra cara dela. Mas como adorava seu corpo. Era de frente, de costas...de qualquer jeito que ela se vestisse ele ficava louco por ela. Sentia a rigidez de suas pernas, seios e bunda só de olhar. E sempre ela se aproximava e se deixava tocar. Que calça linda. Que tom de pele. Mas o que mais gostava era aquele ossinho da cintura que fica nem na barriga nem na coxa. Aquela marquinha que desenha e aponta para o meio das pernas.
Não olhava pra cima, olhava direto pra ela.

Cotidiano

Uma piscada foi o suficiente para tirá-lo da pista. Outro carro vinha na pista contrária, mas esse não piscou, desviou dele pela contra-mão.
Chegando em casa ainda assustado com o incidente. Ele pegava aquela longa estrada todos os dias, era normal que um dia ou outro um momento maior de adrenalina ocorresse, mas hoje havia sido por pouco, podia ter morrido.
Em casa tudo estava normal. Sua esposa cozinhava o de sempre naquela panela que compraram junto com a casa. Sua filha tomava banho, e seu filho mais velho assistia tv.
Foi pro quarto, tomou seu banho, e voltou pra sala já de pijama. Sua cara estava horrível, cansado e com sono. Sentou-se ao lado do filho, olhou pra cozinha e gritou "uma cerveja, pelo amor de Deus". E, como sempre, ouviu a resposta "vem buscar!".

à caminho da escola

Com as batidas do coração cada vez mais rápidas ele começou a perder noção da realidade. Não sabia mais onde estava. Sabia, porém, porquê estava ali, pois podia sentir no ar o cheiro que vinha debaixo de sua saia. Aquelas pernas negras que o fazia suar de noite. Que o fazia suar de manhã.
Todos os dias ele atravessava o rio pela pequena ponte improvisada. E, nem todos os dias, mas nos dias de sorte, ela estaria ali, lavando roupas no riacho.
Como atravessar o rio era caminho pra escola ele achava que ela não desconfiaria. Mas na verdade ela não desconfiaria por outro motivo: ele tinha apenas 12 anos, e ela 27.
Com a primeira paulada que ele deu ela não caiu, foi quando entrou em pânico. Não contava com a possibilidade de ela ser mais forte que ele.
Na segunda, porém, não teve jeito, ela foi ao chão. Assustado, olhou ao redor pra ver se ninguém tinha visto, mas como sempre, ali não havia mais ninguém.
Suas mãos tremiam e de nervoso ele quase vomitara. Mas aos poucos o nervoso foi dando espaço para outra sensação. Uma sensação que por mais novo que fosse já conhecia bem.
Primeiro levantou sua saia, depois abaixou seu decote.
Seu coração disparou novamente, mas agora de tal forma que foi perdendo os sentidos. Quando deu por si, ele estava em outro lugar. Ou seria o mesmo lugar? Não se lembrava de ter pulado no riacho, mas estava todo molhado. Olhou ao redor e não a encontrou. Mas pôde sentir o cheiro, estava suas mãos, em seu corpo todo. Podia sentir o gosto dela.
Quando a primeira paulada não a derrubou ela olhou pra trás. Não podia tê-lo visto, teve que afundá-la no rio.
Ir pra escola pelo caminho do riacho desde então perdeu a graça.

sexo na fazenda

com a balançada mais forte caíram ambos da rede.

Admirador secreto

Empregando cada vez mais força ele podia sentir os pequenos ossinhos de sua mão sendo massacrados. O sangue que escorria já não podia dizer se era dele ou dela. Sua mão doía tanto que duvidava que ela se machucava como ele quando aplicava outro e outro golpe. Os músculos de seu braço já quase sem força se contorciam.
Mas não mais que os músculos de seu rosto. Eles sim agora trabalhavam como nunca antes. Seu rosto era a parte de seu corpo que onde mais se concentrava energia, toda força empregada para fazer aquelas caretas eram no mínimo duas vezes mais que a força destinada aos seus braços e punhos. A cada golpe, cada pancada, seu rosto sofria com o esforço empregado. Cada vez que espirrava suor ele se sentia fraco mediante a tamanho esforço. O suor que escorria da testa para os seus olhos o irritavam mais que o sangue em suas mãos.
Então fechou os olhos. E de olhos fechados ele lembrou da beleza que o levou àquele esforço físico tão grande. O rosto dela brilhava na luz da lua como se fosse o destino certo do astro noturno. Seus cabelos exalavam um combustível que incendiava todas as partes de seu corpo. Era ela, a deusa daquela noite. Ele não precisava pensar à respeito, pois toda a luz que um dia existiu apontava apenas para ela. Não havia dúvidas.

sábado, 16 de janeiro de 2010


e hoje eu sinto saudades do que esperava do futuro.