quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O banco

O elo central daquela cena era o banco. Ele rapidamente percebeu sua importância, e cuidou para que ele, o banco, cumprisse seu tão importante papel.
Momentos antes, no entanto, ele não havia notado. Sua sutileza, sua delicadeza, ou melhor dizendo, sua sensibilidade ainda não estava tão aguçada.
Com um leve sorriso cuidado para não ser notado, ele quase fechou os olhos ao pensar à respeito. Lembrou-se então do caminho percorrido até chegar ali. Lembrou-se da grama meio desbotada, meio pisada, que combinava perfeitamente com aquele tempo nublado e frio que predominava sobre aqueles últimos dias. A cor da grama combinava perfeitamente com o clima melancólico que mantinha com tanto carinho naqueles dias frios. Um verde mais pro bege, meio musgo, meio velho. Quase como se neve tivesse coberto aquela grama por alguns dias e só agora a liberava. Combinava perfeitamente com aquele frio.
Sua caminhada lenta e solitária, porém, não era triste. Nada perto de triste. Melancólica sim, mas por causa do céu nublado e o friozinho que lhe fazia cruzar os braços como se abraçasse a si mesmo. E nessa caminhada solitária ele aproveitava para pensar na vida. Não na dele, nem na de ninguém exatamente, mas na vida. Quase apenas olhava para baixo, é verdade. Quem o visse o acharia triste, meio largado, sem muita energia. Mas a verdade nós já sabemos, estava mesmo era fascinado com a cor da grama. Era completamente diferente da grama de verão, que berra demais, quase exagera ao exibir tanta vida em sua cor. Ele gostava era dessa grama, essa que vive mas pouco se importa em ser bela, e assim tanto combina com aquela vida que ele tanto conhecia, onde você sabe que é vivo, mesmo que não se encante com a vida em si.
Ele, como disse, não pensava em sua vida nem na vida de ninguém, mas na vida e no viver. E, apesar de tanta melancolia, o que aguçou sua sensibilidade naquela tarde foi exatamente o que menos esperava: aquela luz de pôr-do-sol que de repente aparece quando você já deu o dia como noite, aquela luz que invade um dia nublado apenas para lembrar-lhe de que, mesmo escondido, o sol esteve lá. E foi quando, com essa breve mas brusca mudança de cores, o banco tornou-se tão importante naquela cena. Ele, que há pouco entendera a harmonia das poucas cores do tempo nublado agora se deparava com aquela inúmera quantidade de nuvens numa imensidão sem fim ao dialogar com milhões de cores que o toque final do sol vinha trazer àquele dia. Sentou-se, pois não pôde conter-se de pé.
E quem apenas passava não podia notar o que o homem sentado fazia para tornar aqueles poucos segundos de luz em uma eternidade.

Bancos seriam para ele sempre um convite. Um convite à devagar sobre a vida e o que dela veria. E ansiosamente sentaria-se nos mais diversos lugares. E dali pra frente sempre que notasse estar correndo sem motivos, ou mesmo andando sem olhar, pararia e se sentaria.

No dia seguinte subia sua rua em direção ao mercado quando viu uma pequena praça entre duas velhas casas. Com um gramado bonito e uma árvore no centro, havia debaixo dela um velho banco de madeira. Tal banco não estava nenhum pouco próximo à calçada, estava posicionado bem no centro do pequeno gramado entre as duas casas. O convite era então ainda mais forte, porque quase todos os dias subia aquela rua e nunca o tinha notado. Foi então que notou a primeira coisa sentado: os que andam não notam o banco, mas sentem inveja daqueles que se sentaram.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Você conhece a sensação que dá quando do alto de uma montanha sua visão alcança uma imensidão de natureza intocada pelo homem?

Eternidade.

O que me fascina na natureza é isso, essa sensação de eternidade. Quando vemos uma árvore pensamos, talvez, em sua idade, mas raramente em sua morte. Mesmo que isso ocorra, o que sabemos que é algo mais que natural; quando olhamos para uma floresta, porém, (e aqui me refiro às florestas teórica ou praticamente intocadas pelo homem), ela nos remete ao começo de tudo, e provavelmente ao nosso fim. Toda floresta, ou montanhas, ou rios, ilhas...todo esse mundo natural, original, remete-se à eternidade quando pensamos em nossas vidas de pequeno alcance. Tudo, afinal, que relaciona-se com o homem tem uma brevidade. Tudo o que inventamos ou criamos, tudo o que construímos ou transformamos é breve, passageiro. As pirâmides do Egito são indestrutíveis? Passam elas a sensação de eternidade? Ou a de deterioração e queda de um império?
Nada que tocamos permanece. Tudo, no entanto, que permanece por nós intocado... não, não é uma verdade absoluta. Talvez a resposta para nossa busca incessante sobre a eternidade esteja mesmo na arte. Talvez. Música? Literatura? Pintura? Talvez até mesmo o nosso diálogo, nossa capacidade de mudarmos a nós mesmo em prol de uma sociedade, mesmo que não gostemos dela. O sentido de comunidade, sociedade, povo. Quem sabe um dia, quando o homem quebrar a fronteira terrestre, ele carregue com ele nossa arte, e assim perpetue o toque do homem como criação de algo eterno: nossa cultura.
Mas, infelizmente, sabemos que quase tudo o que tocamos deteriora-se com velocidade acelerada. Somos breves e não temos senso de eternidade.

Cotidiano: no metrô

Sentado dentro do metrô, com seu livro aberto em suas mãos, ele quase lia e quase sonhava. Já havia alguns minutos que ele não prestava atenção e apenas corria os olhos por linhas e parágrafos imaginários. Quem o visse não notaria; e realmente, os que viram apenas tiveram aquela imagem comum de senhor intelectual de meia idade e não se aprofundaram na questão.
Ele, dentro de si mesmo, porém, argumentava com sua mulher quase que telepaticamente. Construia seu argumento e, quando ao perceber falhas quando sua mulher o contra-argumentava, ele voltava novamente ao ponto inicial e aperfeiçoava seu raciocínio, fazendo com que sua mulher (imaginária) aceitasse seu ponto de vista e assim seguisse adiante no assunto.
Ao passar das estações ele ficava cada vez melhor no debate. Mas, ao ver que sua estação estava próxima, sentiu-se culpado, e desaprovou dentro de si mesmo a idéia que formulava desde cedo naquele dia. Sua idéia era, afinal, um absurdo. Ele sabia que era, e sabia que ela a acharia ainda pior.
Seu problema sempre existira e sempre existiria. Mas hoje, beirando seus cinquenta anos, sabia que tal assunto não era um problema passageiro, ou algo que ele devesse apenas lutar contra e tentar esquecer. Era um problema, afinal, que todo homem passava mas poucos sabiam lidar. E ele, orgulhoso por seu caráter correto, sempre manteve-se longe das possibilidades concretas de traição. Mas agora, longe de sua juventude, percebia que não viveria em paz se não afrontasse a questão de maneira mais realista.
Ele, sempre fiel à sua esposa, andava angustiado por uma moça nova em seu serviço. Como disse, ele, sempre fiel, nunca traíra sua mulher de fato. Mas, hoje, morrendo por dentro, admitira a si mesmo que desde sua época de namoro a vinha traindo diariamente. Pois ele, afinal, nunca deixara de desejar outras mulheres, podia mesmo nunca ter levado outra pra cama, mas sempre as carregava em sua mente.
Mente imunda? Não, na verdade não.
Ele via as mulheres (agora cito um de seus próprios argumentos), como jóias, como pedras preciosas. Não as via apenas como peito e bunda, ou como sexo. Ele as admirava profundamente em seus pensamentos. Hoje mesmo ficara horas pensando naquele vestido que ela usara.
Abismado com tamanho encanto que tal vestido lhe proporcionara, ele tentou decifrá-lo. Primeiro lembrou-se do leve tecido tocando e acariciando sua bunda. Pensou exatamente onde o tecido do vestido de cores pastéis a tocava e dividia. Mas ainda não era isso, não era exatamente o que lhe causava tamanho encanto. Talvez a própria leveza em si fosse a causa do efeito. A leveza do toque. Pois lembrava-se também de sua barriga, onde o vestido a tocava ele quase podia sentir a textura macia de sua pele. Quase podia respirar ali, ofegante.
Voltando-se ao mundo real ele desceu do vagão e caminhou lentamente com o livro e uma maleta na mão.
Ele precisava pôr isso pra fora de algum jeito. E sabia que seria ridícula qualquer tentativa de explicar o motivo de estar tão quieto, tenso, estressado...
O amor era algo diferente, ele sabia que era. Ainda amava sua mulher como a amou ao pedí-la em namoro, ao pedí-la em casamento. Mas aquilo não tinha, não podia ter relação com seu amor por ela. Ele, afinal, ainda a amava; mas sentia-se perto da morte ao pensar que não poderia tocar aquelas mulheres que dia após dia o faziam enlouquecer.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O músico

Aquela caminhada de madrugada havia se tornado um vício. Não bebia nem fumava, mas também nunca se preocupara em ser do tipo atlético saudável. Caminhava sim, mas para pensar, não para ir realmente a algum lugar.
Sentado no terceiro banco do lado norte do lago em frente ao museu, um senhor idoso sentava-se sempre com o mesmo casaco cinza ouvindo seu walkman de fita. Sempre segurando-o na mão esquerda enquanto a mão direita fazia leves movimentos semelhantes ao de um regente de orquestra. Todos os dias ele estaria ali, e todos os dias ele não deixava de ficar instigado com aquilo. Músico como sempre fora, não deixava de notar pessoas como aquele velho senhor. E aquele ato de tentar reger uma música já gravada o fascinava.
E foi exatamente nesse momento de abstração, exatamente no décimo terceiro dia de caminhadas solitárias que ele a encontrou. Com uma expressão facial indescritível ele teve certeza que a encontrara. E dali em diante reconheceu naquela voz uma suave melodia à medida em que ela, de lábios rosados, soltava aos poucos suas palavras... e frases... e meigas risadas.
Foi então que percebeu que iniciara uma nova fase em sua vida.

Há alguns anos notara que rompimentos bruscos em seu entendimento o levavam a uma nova fase. E como nunca teve medo de mudar, mas sim de se repetir, ou pior, de repetir os outros, ele não hesitava e encarava toda mudança como um passo mais próximo ao caminho da verdade.
Sua primeira fase foi aquela em que todos os amantes da música que se denominam músicos devem passar. Ele a descrevia como "Fase do Meio", nome que sempre que ele usava era mal compreendido, já que por ser a primeira fase não fazia sentido ser a do meio, mas aos poucos que ele se dava ao trabalho de explicar facilmente entendiam. O "meio", claro, era o "instrumento".
A fase do meio, portanto, consistia no momento inicial do aspirante a músico, onde tal amante acredita que sua amada se esconde em cada instrumento musical. Aquele que abre seu caminho através das cordas do violão acredita de olhos fechados que toda música se encontrará por entre aquelas cordas e posições. Já o pianista, durante essa fase, acredita que a exata combinação de teclas a alcançará. E tal crença dura até que ele perceba que o instrumento não é música, e a música que ele fornece é nada mais do que aquela que sua mão alcança ou está habituada a alcançar. O alcance da mão, no entanto, para aquele que um dia compreendeu melhor a música, é infinitamente menor que o amor da música para com aquele que a busca.
A segunda fase é a "Fase Egocêntrica", onde o músico acredita ser a música em si. E ele acreditou com toda certeza. Fechava os olhos e a enxergava com tamanha nitidez que não havia dúvidas, a música estava dentro dele. Era só olhar cada vez mais para dentro de si mesmo que a encontraria. Sua mão, agora livre dos vícios iniciais, livre para buscar a música que muito lhe fugia o alcance, agora alcançava tão longe quanto seu próprio eu podia alcançar.
Por algum tempo acreditou que seu próprio suor eram suspiros da música. Acreditou e externou sua crença, trazendo à tona aquela música que vivia apenas ali, dentro de si. E quem ouviu se apaixonou por ele. E ele, com mais e mais certeza buscou mais e mais fundo.
A música, no entanto, foi tornando-se cada vez mais escassa. E com o passar do tempo ela o abandonou.
Procurou em vão por mais algum tempo. Mas dentro de si a música não vivia mais.

E foi num dia de longa caminhada sozinho que a encontrou. Foi necessário que primeiro deixasse de acreditar que a encontraria em objetos, mas o maior passo foi deixar de acreditar que era o seu dono, e que devia buscá-la fora de si mesmo, fora desse mundo viciado em pré-concepções. Percebeu que a música era, e sempre foi, música por si só. Ninguém podia controlá-la, muito menos acreditar possuí-la. Foi quando deixou de obcessivamente tentar domá-la aos seus caprichos, e assim a encontrou; pura e perfeita.
Ela, a música, agora não seguia a lei dos homens, mas vivia livre como música que sempre foi. E como prova de amor pelo músico libertador, a música passou a lhe visitar todos os dias. Nua ela o acariciava enquanto cantava aos seus ouvidos. Sem idéias fixas, receios ou preconceitos, ele deixou de querer ser seu ditador; deixou-a mostrar-lhe todos seus encantos. Assim de forma tão natural viraram fiéis amantes onde quase podia vê-la: ela, de lábios rosados, soltava aos poucos suas palavras... e frases... e meigas risadas.




segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Cheiro de madeira molhada

Cenário: O lugar era abafado. O cheiro de madeira úmida era forte o suficiente para praticamente anular qualquer outro cheiro. Era mais ou menos cinco horas da tarde. O sol não aparecera aquele dia. Mas ainda não estava escuro. Dali de dentro podia-se ouvir vozes e conversas aleatórias à distância. Por vez ou outra alguém passava correndo mais perto, fazendo o barulho de pés descalços na pedra molhada. Carruagens por vezes se aproximavam, mas raramente. A maioria passava ao longe. Longe o suficiente para ouvirem apenas as rodas de madeira tocarem as quinas dos paralelepipedos, e as ferraduras de trote lento desritmado. A chuva que caíra nos últimos dias havia dado uma trégua para uma fina garoa. Lá fora fazia um friozinho gostoso de fim de tarde úmida. Mas lá dentro estava muito abafado.

Personagens: Ana havia nascido numa pequena vila fora da cidade. Crescera com sua mãe e dois irmãos. Via o pai quase todo o dia, mas não moravam juntos. A história do pai e da mãe ainda não terminara, já que por vezes ele passava a noite por lá. Mas não viviam mais juntos. Ana, já com dezessete, trabalhava cuidando da casa, e quando sobrava tempo corria com seus irmãos para a lavoura. Ela não precisava ajudar, mas ajudava. Fazia de tudo para não ficar em casa. Não que não se desse bem com sua mãe. Ou mesmo com seu pai, já que ele também sempre estava na lavoura com seus irmãos. Mas Ana tinha algo dentro dela que a fazia querer correr. E corria. Mesmo com o a grama molhada e o chão enlameado sempre que ela podia ela corria. E como era a sempre mais disposta, era ela mesma que sempre era encarregada em dar um pulo na cidade. Para buscar leite, pães, ou qualquer coisa que lhes faltassem, a mãe de Ana sempre pedia apenas para ela ir buscar, já que cansara de implorar para os irmãos mais velhos sendo que ela ía "num pulo". Ir ela ía, mas sempre demorava pra voltar.
Alice morava na cidade. Era filha do dono da barraca de pães da pequena feira da cidade. Quando não estava na rua de cima com sua mãe ajudando fazer os biscoitos ela estava com seu pai ajudando a vender os pães. E biscoitos. E outras coisas. Ao contrário da Ana, porém, ela nunca foi muito disposta a ajudar os pais em suas tarefas diárias. Ela era mais sonhadora. Não sonhadora no sentido de correr descalça de saia com os pés na lama como Ana. Mas sonhadora do tipo de sonhar acordar mesmo. Daquele tipo que sonha, sonha, mas não sai do lugar. E por esse motivo vira e mexe ela tomava uma bronca do pai. Ou um tapa na cara da mãe, seguido por um "acorda, inútil!". Isso, claro, a incomodava. Mas não fazia drama à respeito. Era afinal uma sonhadora do pior tipo.

Cena: E por ser tão distraída e quase não ajudar em nada, sua mãe a encarregou de comprar o leite aquele dia. Sonhadora do pior tipo que era, não apreciava a caminhada, nem percebia os pássaros, nem se deliciava com a garoa fina que tocava seu rosto. Sonhava com outras coisas, coisas que não via, coisas inalcançáveis, coisas inexistentes. E assim seguia rua abaixo, por entre as estreitas ruas de paralelepipedos da pequena cidade. Seu vestido de pano estava limpo da cintura pra cima, o que lhe favorecia o rosto, trazendo-lhe uma luz subliminar à sua face limpa.
Ana, cansada de correr parou um pouco pra descansar. Olhou pra cima de olhos fechados pra refrescar o rosto. O cabelo quase molhado pendia pra trás. E então, ainda de olhos fechados, sentiu um cheiro que superou aquele perfume gostoso amadeirado. Ela que amava aquele cheiro de madeira molhada sentiu-se arrepiada ao reconhecer aquele velho perfume tão muito melhor. Mesmo de cabelo preso Alice exalava aquele cheiro de menina banhada que Ana conhecia muito bem. A sonhadora do pior tipo, no entanto, nem percebeu a menina que rindo entrou no pequeno e velho armazém. E com o puxão que veio do nada ela se conteve pra não gritar. No susto fechou os olhos e só abriu quando teve certeza. E o que Alice mais gostava nela era, afinal, aquela facilidade de improvisar.
E na casa das duas pôde-se ouvir ecoar: "E aquele leite que não chega?"

O construtor

"Não sou pedreiro, sou construtor." Disse ele pela segunda vez, e dessa vez impostando a voz com mais firmeza.
"Construtor é o responsável pela obra, rapá!", "Tu é pedreiro mesmo! De onde já se viu?"
"Nunca mexi com pedra, então não sou pedreiro. Se trabalhasse com extração, mineradora ou algo parecido te diria que era, mas não sou. Construção é minha área, eu construo as coisas, sou portanto construtor. Já construí mais de cem casas, mais de trinta lojas, e uma creche. Eu trabalho construindo. Construo direito, pois é meu trabalho. Sou construtor."
"Puta que o pariu! Ow, Alemão! Onde você arranjou esse filho da puta?". Olhou pra trás mas ninguém respondeu. Todos continuaram suas rotinas de trabalho. Tijolos eram empilhados, botas no pé e sacos de areia no ombro. O cimento pouco rodava e já caía nos carrinhos. Carrinhos de mão que passavam de vazios para cheio e as paredes já eram espirradas de reboco pra receber a massa.
"Vem cá, vai continuar com essa história de construtor aí ou vai aceitar o trabalho?"
"O trabalho eu aceito." Disse com cara séria sem sair do lugar. "Mas não sou pedreiro!"
"Tu é construtor então?"
"Sou construtor, sim senhor!"
"Então me diz, se tu é construtor tu é dono de uma construtora, é isso? Por que pra mim tem construtor, que é o encarregado da obra, e tem a construtora, que é a dona da porra da obra. Agora você, você é pedreiro! Olho pra ti e já vejo. Sempre trabalhou e sempre vai trabalhar pra porra do construtor que é funcionário da porra da construtora!"
"Vou explicar pro senhor. Mas vou explicar só mais essa vez. Economista é dono da economia? Economista faz a economia funcionar? A economia sem o economista deixa de existir?? Não. O economista tem esse nome porque estuda a economia. Ele entende ela, mas ela não precisa dele. Agora a construção precisa de mim. Sem os construtores como eu, que põe a mão no bloco e sabe o que fazer com eles a construção não sai. Eu diria até que sem essa sua construtora mesmo assim construções existiriam. Sem construtores como eu, no entanto..."
Um encarou o outro por um tempo. O que ouviu tirou um cigarro do bolso, colocou na boca, e antes de acender por fim falou:
"Tá certo. Me convenceu... mas idaí, qual a diferença então? Tu é construtor, mas trabalha como todo pedreiro aqui. Tu é esperto, não vou negar. Entende do que fala. É mais espero que esses caras aqui. Mas idaí? Qual a diferença se vai aceitar trabalhar aqui com eles?"
"Eu cobro mais caro."



"E cobro hora extra também..."