Personagens: Ana havia nascido numa pequena vila fora da cidade. Crescera com sua mãe e dois irmãos. Via o pai quase todo o dia, mas não moravam juntos. A história do pai e da mãe ainda não terminara, já que por vezes ele passava a noite por lá. Mas não viviam mais juntos. Ana, já com dezessete, trabalhava cuidando da casa, e quando sobrava tempo corria com seus irmãos para a lavoura. Ela não precisava ajudar, mas ajudava. Fazia de tudo para não ficar em casa. Não que não se desse bem com sua mãe. Ou mesmo com seu pai, já que ele também sempre estava na lavoura com seus irmãos. Mas Ana tinha algo dentro dela que a fazia querer correr. E corria. Mesmo com o a grama molhada e o chão enlameado sempre que ela podia ela corria. E como era a sempre mais disposta, era ela mesma que sempre era encarregada em dar um pulo na cidade. Para buscar leite, pães, ou qualquer coisa que lhes faltassem, a mãe de Ana sempre pedia apenas para ela ir buscar, já que cansara de implorar para os irmãos mais velhos sendo que ela ía "num pulo". Ir ela ía, mas sempre demorava pra voltar.
Alice morava na cidade. Era filha do dono da barraca de pães da pequena feira da cidade. Quando não estava na rua de cima com sua mãe ajudando fazer os biscoitos ela estava com seu pai ajudando a vender os pães. E biscoitos. E outras coisas. Ao contrário da Ana, porém, ela nunca foi muito disposta a ajudar os pais em suas tarefas diárias. Ela era mais sonhadora. Não sonhadora no sentido de correr descalça de saia com os pés na lama como Ana. Mas sonhadora do tipo de sonhar acordar mesmo. Daquele tipo que sonha, sonha, mas não sai do lugar. E por esse motivo vira e mexe ela tomava uma bronca do pai. Ou um tapa na cara da mãe, seguido por um "acorda, inútil!". Isso, claro, a incomodava. Mas não fazia drama à respeito. Era afinal uma sonhadora do pior tipo.
Cena: E por ser tão distraída e quase não ajudar em nada, sua mãe a encarregou de comprar o leite aquele dia. Sonhadora do pior tipo que era, não apreciava a caminhada, nem percebia os pássaros, nem se deliciava com a garoa fina que tocava seu rosto. Sonhava com outras coisas, coisas que não via, coisas inalcançáveis, coisas inexistentes. E assim seguia rua abaixo, por entre as estreitas ruas de paralelepipedos da pequena cidade. Seu vestido de pano estava limpo da cintura pra cima, o que lhe favorecia o rosto, trazendo-lhe uma luz subliminar à sua face limpa.
Ana, cansada de correr parou um pouco pra descansar. Olhou pra cima de olhos fechados pra refrescar o rosto. O cabelo quase molhado pendia pra trás. E então, ainda de olhos fechados, sentiu um cheiro que superou aquele perfume gostoso amadeirado. Ela que amava aquele cheiro de madeira molhada sentiu-se arrepiada ao reconhecer aquele velho perfume tão muito melhor. Mesmo de cabelo preso Alice exalava aquele cheiro de menina banhada que Ana conhecia muito bem. A sonhadora do pior tipo, no entanto, nem percebeu a menina que rindo entrou no pequeno e velho armazém. E com o puxão que veio do nada ela se conteve pra não gritar. No susto fechou os olhos e só abriu quando teve certeza. E o que Alice mais gostava nela era, afinal, aquela facilidade de improvisar.
Ana, cansada de correr parou um pouco pra descansar. Olhou pra cima de olhos fechados pra refrescar o rosto. O cabelo quase molhado pendia pra trás. E então, ainda de olhos fechados, sentiu um cheiro que superou aquele perfume gostoso amadeirado. Ela que amava aquele cheiro de madeira molhada sentiu-se arrepiada ao reconhecer aquele velho perfume tão muito melhor. Mesmo de cabelo preso Alice exalava aquele cheiro de menina banhada que Ana conhecia muito bem. A sonhadora do pior tipo, no entanto, nem percebeu a menina que rindo entrou no pequeno e velho armazém. E com o puxão que veio do nada ela se conteve pra não gritar. No susto fechou os olhos e só abriu quando teve certeza. E o que Alice mais gostava nela era, afinal, aquela facilidade de improvisar.
E na casa das duas pôde-se ouvir ecoar: "E aquele leite que não chega?"
Faz muito tempo que não te escuto, mais tempo ainda que não te vejo e muito mais que não leio o que você escreve. Eu só imagino.
ResponderExcluirLendo esses textos que você escreveu eu imagino uma cena extremamente diferente daquela que eu era acostumada a ver, a ouvir, ou até mesmo a ler. É estranho tudo isso, saber bastante de alguém e não entender nada desse alguém;
Um dia eu pude ler o que dizia o seu comportamento, as suas atitudes, os seus gostos, eu só não podia ler o que diziam os seus olhos.
Hoje eu não lhe olho mais nos olhos, mais eu consigo ler o que você escreve e ver muito mais além!
Confesso que te entender como entendo hoje, lendo você, é um sentimento mais profundo do que eu sentia antes quando só te via e não entendia.
Mas tenho saudades de um dia mesmo não te entendendo, podendo te sentir, saudades de quando eu estava alí. Presente!
Quero que saiba que mesmo quieta, eu leio você!
nossa...
ResponderExcluirEu posso quase sentir, lendo sua cena, o cheiro de madeira molhada; isso já diz o suficiente da sensibilidade do que você escreve (:
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