Na tentativa de compôr musicalmente através de cores, texturas e sensações, tentei agregar ao resultado (musical) uma das imagens que venho "estudando" nesse mesmo sentido. Para o vídeo acabei usando um efeito simples, meio bobo, mas que tem feito sentido pra mim, dentro de tudo que tenho procurado por enquanto e minha falta de experiência no áudio-visual.
Acredito que ainda faltam elementos visuais para a atividade "minusculamente cortante" que mantém uma textura tanto agradável como dolorosa; o que tem sido essencial para a composição dessa música. E por isso (além da falta de fluência rítmica da trasnformação/pixelização) tenho esse "vídeo" como estudo apenas, e de caráter certamente provisório.
segunda-feira, 28 de março de 2011
sábado, 26 de março de 2011
Com as luzes apagadas e ambas as mãos tapando os ouvidos, conseguia atingir um quase silêncio. Não fazia isso com frequência, muito menos quando pudesse ser visto. Aliás, não ser visto, para ele, fazia parte do silêncio. Para ele a companhia gerava tensão, que no mínimo seria o suficiente para dissipar o silêncio em um turbilhão de elementos conflitantes e confluentes.
A companhia, naquela noite, porém, não era algo que procurava evitar. Apenas buscava o silêncio.
Fora os romantismos esperados por aqueles que buscam motivos para apreciar a companhia de alguém, naquela noite nosso personagem liga para ela.
Ele desfruta, em um primeiro momento, de um exercício de entender e reconhecer os sons reproduzidos pelo telefone. Tenta entender os sons e ruídos ao seu redor, assim como imaginar onde ela está, mesmo que de forma involuntária. E sente-se subitamente encurralado. Não por não saber o que falar sem transparecer um nervosismo juvenil; ele se sente encurralado no exato momento em que percebe ser obrigado a falar. Não sente vontade de falar assim de imediato. Sente-se encurralado por querer ser sincero, por não querer emendar um assunto no outro. Sente-se encurralado por querer apenas sorrir e vê-la sorrir.
Já no segundo momento, ainda antes de ouví-la dizer, percebe o que quer. Já não importa o ruído eletrônico. Projeta-se presente. Ele, ao telefone, quer trocar sorrisos.
Ouvir sua voz possibilita uma atualização imediata de suas lembranças para um fato novo, para um contato novo. Pode vê-la, mesmo que através de retalhos de lembranças. Existe uma conexão real, e ele já pode vê-la fora delas, fora das selecionadas lembranças, agora num mundo novo em que ele ativamente participa. Ele pode vê-la... Não há lapso no tempo nem distorção do espaço. Ele pode vê-la, e simultaneamente o onde ele está desaparece.
Enquanto conversam, emendando um assunto no outro, ele admira os ambientes em que ela passa. Através da variação do eco ele pode reconhecer onde ela está. No corredor; a voz do irmão; no quarto; a voz do irmão; no corredor; no banheiro. Um assunto emenda no outro. E ele visualiza tudo o que ela faz, prestando atenção aos detalhes. O cabelo, o jeito de andar. Os pés descalços diante de uma cama por arrumar. O piso de madeira. As cores das paredes. O pijama leve e suas pernas. Um assunto emenda no outro. Mas não pode tocá-la.
O telefone.
A companhia, naquela noite, porém, não era algo que procurava evitar. Apenas buscava o silêncio.
Fora os romantismos esperados por aqueles que buscam motivos para apreciar a companhia de alguém, naquela noite nosso personagem liga para ela.
Ele desfruta, em um primeiro momento, de um exercício de entender e reconhecer os sons reproduzidos pelo telefone. Tenta entender os sons e ruídos ao seu redor, assim como imaginar onde ela está, mesmo que de forma involuntária. E sente-se subitamente encurralado. Não por não saber o que falar sem transparecer um nervosismo juvenil; ele se sente encurralado no exato momento em que percebe ser obrigado a falar. Não sente vontade de falar assim de imediato. Sente-se encurralado por querer ser sincero, por não querer emendar um assunto no outro. Sente-se encurralado por querer apenas sorrir e vê-la sorrir.
Já no segundo momento, ainda antes de ouví-la dizer, percebe o que quer. Já não importa o ruído eletrônico. Projeta-se presente. Ele, ao telefone, quer trocar sorrisos.
Ouvir sua voz possibilita uma atualização imediata de suas lembranças para um fato novo, para um contato novo. Pode vê-la, mesmo que através de retalhos de lembranças. Existe uma conexão real, e ele já pode vê-la fora delas, fora das selecionadas lembranças, agora num mundo novo em que ele ativamente participa. Ele pode vê-la... Não há lapso no tempo nem distorção do espaço. Ele pode vê-la, e simultaneamente o onde ele está desaparece.
Enquanto conversam, emendando um assunto no outro, ele admira os ambientes em que ela passa. Através da variação do eco ele pode reconhecer onde ela está. No corredor; a voz do irmão; no quarto; a voz do irmão; no corredor; no banheiro. Um assunto emenda no outro. E ele visualiza tudo o que ela faz, prestando atenção aos detalhes. O cabelo, o jeito de andar. Os pés descalços diante de uma cama por arrumar. O piso de madeira. As cores das paredes. O pijama leve e suas pernas. Um assunto emenda no outro. Mas não pode tocá-la.
O telefone.
eus
Após algumas horas vazias diante de luzes, cores e sons, nosso personagem por fim entrega-se ao cansaço. Admite a si mesmo, através de uma rápida conexão entre seus eus, sua incapacidade de transformação ou mudança daquilo que há muito concordaram ser de extrema importância para sua aceitação como pessoa, ou crença em sua própria existência como tal. Sendo assim, declara-se inapto à ação.
Diante de um consenso tão fatídico, apesar de podermos afirmá-lo instantâneo com base em uma linha reta de tempo que baseia-se em fatos e fatores externos a ele, sentiu-se aliviado.
Estirou-se. Relaxou os músculos tensos que há pouco chegaram à exaustão devido a movimentos involuntários e repetitivos, e sentiu-se. Pensou junto aos seus eus sobre si mesmo. Sobre aquele ser impossível de existir.
Pensaram, ele e todos os palpitantes, sobre o corpo. E ouviu alguém dizer, "Quem é o corpo?", e alguém lá no fundo, "Seria ele todos nós?". No qual pôde ouvir-se respondendo, mesmo que sem planejar, "Ele é nossa janela... Nossa porta. Ele trabalha para que possamos chegar aos outros... Chegar àqueles que vivem, que andam por aí.", no que seguiu até que um disse algo que causou silêncio, um silêncio que há muito não ocorria: "Mas você não anda por aí..."
Apalpou-se. Tocou seu corpo ainda deitado, sem sentir cansaço algum.
Tocou o próprio rosto, como se para reconhecer alguém quando cego. Não podia se ver, pois sabia que haviam eus demais para um rosto só, e ao mesmo tempo teve a impressão de que aquele, aquele que podia ser visto, não correspondia a nenhum deles, nem mesmo àquele que chamava de eu.
Tocou aquele que não podia ser. Mas, de forma estranha e impensada, passou a apalpar os ossos por baixo da face. Não tinha mais interesse na forma de seu rosto, mas naquilo que havia por debaixo. Seria seu crânio igual a todos os outros crânios daqueles que já morreram?
Interessou-se espantosamente pela forma de seu crânio. Passou a esfregá-lo com cada vez mais força, de forma desesperadora. Precisava reconhecer a si mesmo, pois quem seria se não?
Diante de um consenso tão fatídico, apesar de podermos afirmá-lo instantâneo com base em uma linha reta de tempo que baseia-se em fatos e fatores externos a ele, sentiu-se aliviado.
Estirou-se. Relaxou os músculos tensos que há pouco chegaram à exaustão devido a movimentos involuntários e repetitivos, e sentiu-se. Pensou junto aos seus eus sobre si mesmo. Sobre aquele ser impossível de existir.
Pensaram, ele e todos os palpitantes, sobre o corpo. E ouviu alguém dizer, "Quem é o corpo?", e alguém lá no fundo, "Seria ele todos nós?". No qual pôde ouvir-se respondendo, mesmo que sem planejar, "Ele é nossa janela... Nossa porta. Ele trabalha para que possamos chegar aos outros... Chegar àqueles que vivem, que andam por aí.", no que seguiu até que um disse algo que causou silêncio, um silêncio que há muito não ocorria: "Mas você não anda por aí..."
Apalpou-se. Tocou seu corpo ainda deitado, sem sentir cansaço algum.
Tocou o próprio rosto, como se para reconhecer alguém quando cego. Não podia se ver, pois sabia que haviam eus demais para um rosto só, e ao mesmo tempo teve a impressão de que aquele, aquele que podia ser visto, não correspondia a nenhum deles, nem mesmo àquele que chamava de eu.
Tocou aquele que não podia ser. Mas, de forma estranha e impensada, passou a apalpar os ossos por baixo da face. Não tinha mais interesse na forma de seu rosto, mas naquilo que havia por debaixo. Seria seu crânio igual a todos os outros crânios daqueles que já morreram?
Interessou-se espantosamente pela forma de seu crânio. Passou a esfregá-lo com cada vez mais força, de forma desesperadora. Precisava reconhecer a si mesmo, pois quem seria se não?
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