sábado, 26 de março de 2011

eus

Após algumas horas vazias diante de luzes, cores e sons, nosso personagem por fim entrega-se ao cansaço. Admite a si mesmo, através de uma rápida conexão entre seus eus, sua incapacidade de transformação ou mudança daquilo que há muito concordaram ser de extrema importância para sua aceitação como pessoa, ou crença em sua própria existência como tal. Sendo assim, declara-se inapto à ação.
Diante de um consenso tão fatídico, apesar de podermos afirmá-lo instantâneo com base em uma linha reta de tempo que baseia-se em fatos e fatores externos a ele, sentiu-se aliviado.
Estirou-se. Relaxou os músculos tensos que há pouco chegaram à exaustão devido a movimentos involuntários e repetitivos, e sentiu-se. Pensou junto aos seus eus sobre si mesmo. Sobre aquele ser impossível de existir.
Pensaram, ele e todos os palpitantes, sobre o corpo. E ouviu alguém dizer, "Quem é o corpo?", e alguém lá no fundo, "Seria ele todos nós?". No qual pôde ouvir-se respondendo, mesmo que sem planejar, "Ele é nossa janela... Nossa porta. Ele trabalha para que possamos chegar aos outros... Chegar àqueles que vivem, que andam por aí.", no que seguiu até que um disse algo que causou silêncio, um silêncio que há muito não ocorria: "Mas você não anda por aí..."
Apalpou-se. Tocou seu corpo ainda deitado, sem sentir cansaço algum.

Tocou o próprio rosto, como se para reconhecer alguém quando cego. Não podia se ver, pois sabia que haviam eus demais para um rosto só, e ao mesmo tempo teve a impressão de que aquele, aquele que podia ser visto, não correspondia a nenhum deles, nem mesmo àquele que chamava de eu.
Tocou aquele que não podia ser. Mas, de forma estranha e impensada, passou a apalpar os ossos por baixo da face. Não tinha mais interesse na forma de seu rosto, mas naquilo que havia por debaixo. Seria seu crânio igual a todos os outros crânios daqueles que já morreram?
Interessou-se espantosamente pela forma de seu crânio. Passou a esfregá-lo com cada vez mais força, de forma desesperadora. Precisava reconhecer a si mesmo, pois quem seria se não?

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