sábado, 26 de março de 2011

Com as luzes apagadas e ambas as mãos tapando os ouvidos, conseguia atingir um quase silêncio. Não fazia isso com frequência, muito menos quando pudesse ser visto. Aliás, não ser visto, para ele, fazia parte do silêncio. Para ele a companhia gerava tensão, que no mínimo seria o suficiente para dissipar o silêncio em um turbilhão de elementos conflitantes e confluentes.
A companhia, naquela noite, porém, não era algo que procurava evitar. Apenas buscava o silêncio.
Fora os romantismos esperados por aqueles que buscam motivos para apreciar a companhia de alguém, naquela noite nosso personagem liga para ela.
Ele desfruta, em um primeiro momento, de um exercício de entender e reconhecer os sons reproduzidos pelo telefone. Tenta entender os sons e ruídos ao seu redor, assim como imaginar onde ela está, mesmo que de forma involuntária. E sente-se subitamente encurralado. Não por não saber o que falar sem transparecer um nervosismo juvenil; ele se sente encurralado no exato momento em que percebe ser obrigado a falar. Não sente vontade de falar assim de imediato. Sente-se encurralado por querer ser sincero, por não querer emendar um assunto no outro. Sente-se encurralado por querer apenas sorrir e vê-la sorrir.
Já no segundo momento, ainda antes de ouví-la dizer, percebe o que quer. Já não importa o ruído eletrônico. Projeta-se presente. Ele, ao telefone, quer trocar sorrisos.
Ouvir sua voz possibilita uma atualização imediata de suas lembranças para um fato novo, para um contato novo. Pode vê-la, mesmo que através de retalhos de lembranças. Existe uma conexão real, e ele já pode vê-la fora delas, fora das selecionadas lembranças, agora num mundo novo em que ele ativamente participa. Ele pode vê-la... Não há lapso no tempo nem distorção do espaço. Ele pode vê-la, e simultaneamente o onde ele está desaparece.
Enquanto conversam, emendando um assunto no outro, ele admira os ambientes em que ela passa. Através da variação do eco ele pode reconhecer onde ela está. No corredor; a voz do irmão; no quarto; a voz do irmão; no corredor; no banheiro. Um assunto emenda no outro. E ele visualiza tudo o que ela faz, prestando atenção aos detalhes. O cabelo, o jeito de andar. Os pés descalços diante de uma cama por arrumar. O piso de madeira. As cores das paredes. O pijama leve e suas pernas. Um assunto emenda no outro. Mas não pode tocá-la.

O telefone.

2 comentários:

  1. Você realmente não devia parar de escrever.

    E o livro? To esperando!

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  2. ...hehe, valeu!
    então, o livro deu uma crescida no começo do ano, mas minha vida tem estado uma bagunça, então tá meio difícil pegar nele ultimamente. mas vira e mexe eu penso nele. tô ficando com saudades já... logo mais eu me jogo de novo. hehe...
    mas eu sei q é um projeto com um prazo bem longo. quero q fique incrível... não me posso apressar. rs...

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