Sentado em seu velho sofá forrado com um cobertor vermelho, comia um pedaço de pão. Olhando para sua sala via sua tv de 21 polegadas à sua direita, que desligada refletia os poucos feixes de luz que vazavam por entre as cortinas atrás dele. Agora que tinha tempo livre e silêncio como nunca presenciara antes naquele apartamento escuro, pôde perceber a dança que a poeira fazia ao encontrar com cada um daqueles feixes.
Pouco impressionado desviou o olhar e a atenção para aquela mesa que nunca entendeu muito o motivo de estar tão rente à parede. Apesar de terem sido apenas dois ali, a mesa, ao seu entender, teria muito mais utilidade na cozinha espaçosa à porta sempre aberta da esquerda do que naquele canto apertado da sala. As duas cadeiras mal cabiam, e ainda ficavam de costas para a tv.
Sobre a mesa seu casaco se estendia pendurado num gancho que devia servir para outra coisa.
Ao lado direito da mesa estava a porta de entrada do apartamento, que dali não via mas imaginava as escadas tão barulhentas pela manhã e que agora haviam se aquietado.
O sol quase se punha, as crianças provavelmente tomavam leite quente e conversavam baixinho para que seus pais pudessem assistir ao noticiário, ou a novela se a mulher fosse a mais influente da casa.
Na sua casa, porém, ninguém tomava leite, ali havia apenas ele com seu pão, e sua tv desligada para não perturbar seus pensamentos.
Não sabia porque, mas seu olhar sempre retornava para a mesa.
Talvez por ter sido um centro de muitas discórdias. Ele disse tantas vezes que preferia ocupar o espaço vago na cozinha do que sentar na sala de costas para a tv. Da cozinha até dava pra ver a tv, era só aumentar o volume.
Olhava para a tv que agora nem queria ligar, e retornava o olhar para a mesa. Pensou a respeito.
Na mesa não havia sequer um pano bonito. Apenas seu casaco por cima dela. E aquelas flores murchas.
Pôs a mão no bolso, achou alguns trocados, levantou-se, pegou o casaco e saiu pelas escadas.
Ela sempre cuidara das flores que ficavam na mesa.
Ele então descia as escadas para comprar novas. Agora de plástico.