Ela sempre acreditou que pessoas mal encaradas eram infelizes. Não que andasse por aí sorrindo, ou mesmo que sorrisse aos olhares cruzados, mas mal encarada nunca foi. Pelo menos nunca viu em si mesma qualquer indício para acreditar que poderia transparecer infelicidade.
Andava pensativa nessa tarde, aquele mesmo cara que estava sempre naquele mesmo vagão hoje a olhou de forma mal encarada. Ou seria ela que transparecia infelicidade e despertou nele uma reação espelhada?
"Que teoria era essa, afinal?", pensou consigo mesma. Não lembrava onde a teria ouvido, ou mesmo se a teria inventado. Mas ao entrar em seu vagão, agora no turno de volta, simplesmente acreditava plenamente na teoria.
A teoria da reação espelhada. "Seria mesmo possível?. De tantos mal encarados que já havia visto, quantos estariam então espelhando sua própria infelicidade?"
Infeliz era uma palavra pesada para uma garota; "menina" para alguns. Infeliz.
Talvez estivesse errada na própria base, na própria fundação da teoria; talvez mal encarados não sejam infelizes afinal. Talvez a formação muscular de suas faces contraia de maneira a parecerem mal encarados, mas não seriam realmente.
"Será que tem muita gente por aí fazendo cara de mal por constituição física e não psicológica?"
"A questão não era essa... era?"
No dia seguinte, no mesmo vagão do turno de ida, viu o mesmo cara que já há algumas semanas ela tinha visto pela primeira vez.
Durante sua jornada diúrna, devagava sobre a constituição psicológica, intelectual e até mesmo artística daquele cara.
Ele que, de aparência "intelectualmente culto", "psicológicamente tranquilo", e "fisicamente normal"; sem contar a chance estatisticamente comprovada por ela e seus debates solitários de ele ter algum envolvimento artístico em alguma área ainda indefinida, mas muito discutida e inquietantemente anseada, e que hoje lia um novo livro agora de capa cinza e ouvia música em seus fones. Música essa onde volume era sempre baixo, o que ou a fazia acreditar ser um sinal de falta de interesse musical, ou que era tão musicalmente refinado que apreciava em volume ameno suas músicas pouco barulhentas, ao contrário da galera do psy às 6 horas da manhã.
Isso tudo, porém, era de pouca importância. Não pra ela, claro, mas pra ele. Pois hoje, assim como no dia anterior, ao cruzar olhares involuntários simplesmente a "mal encarou".
Ela, por impulso ou raiva, "mal encarou" de volta.
Infeliz. Ou ela ou ele. A teoria do espelho.
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