segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Seleção de cenas

Ele sabia como aquilo funcionava. A cada dia aprimorara mais e mais seu método e, agora que o usaria mais do que nunca, estava perfeito.
Há quanto tempo vinha desenvolvendo-o já não sabia. Desde sempre talvez. Mas não lhe restavam dúvidas de que só agora poderia desfrutá-lo por completo. Ele, afinal, era seu dono. E o segredo para chegar onde chegou estava nos detalhes.
Respirou fundo. Apagou a luz...e fechou os olhos.
Sabia que muito em breve não mais precisaria desse ritual todo, mas tudo era questão de controlar a ansiedade agora.
Sua respiração foi ficando cada vez mais lenta. Seu coração já batendo bem devagarinho...até que sentiu a luz invadir seus olhos. Tudo o que via era aquele tom avermelhado da luz do sol convidando às pálpebras dos olhos a se abrirem.
Sentiu o friozinho daquela manhã, e abriu os olhos: ali estava ela!
Estava coberto naquele grosso edredon no qual ela tanto se orgulhava ter comprado em promoção. Nem ele nem ela estavam vestidos. Tudo o que via, porém, eram suas costas e seu cabelo iluminado.
Seu coração permaneceu calmo. Sua respiração continuou bem leve. Leve o suficiente para se aproximar de seu pescoço e sentir seu cheiro sem acordá-la. A sensação de tocar aqueles cabelos novamente o enchia de sentimentos mistos. Era muita tristeza. Muito tesão. E muita alegria.
Sentou-se na cama ainda do lado da parede. Olhou para as próprias mãos e nesse momento quase enganou-se a si mesmo. Era tudo muito real.
Sorriu e chorou. Pois havia funcionado. Cada detalhe que naquele dia se forçou a prestar atenção agora se mostrava vivo em sua recordação.


Obs: O que ele tinha agora era uma cópia perfeita daquela que ele acreditou que fosse, e que hoje já não era mais.
Por diversas vezes ele fez isso, atentou-se aos menores detalhes dos mais cotidianos cenários, e, principalmente, de sua amada.
Fez tudo isso ao antecipar o fim. E agora revisitava suas cenas prediletas captadas enquanto ela lhe escapava.

Um comentário: